No ano passado, o presidente americano Donald Trump usou a rede social Truth Social para compartilhar uma “notícia muito importante e empolgante”.
A Nvidia, gigante da fabricação de chips, havia acabado de anunciar planos para construir supercomputadores de inteligência artificial nos Estados Unidos.
“Todas as licenças necessárias serão agilizadas e concedidas rapidamente” à Nvidia e empresas similares, prometeu Trump em uma postagem de 15 de abril de 2025 para seus mais de nove milhões de seguidores.
O que o presidente não revelou na época foi que, dias antes, havia comprado entre US$ 200 mil e US$ 500 mil em ações da empresa.
Uma investigação da CNN descobriu que Trump promoveu mais de 20 empresas em sua conta do Truth Social dias depois de comprar ações dessas empresas – às vezes anunciando ações governamentais que poderiam beneficiar as empresas nas quais acabara de investir.
A Casa Branca negou veementemente que o presidente americano tenha usado seu cargo para obter ganhos financeiros e afirmou que suas ações visam beneficiar o público do país.
Todas as transações de ações do presidente são conduzidas por gestores financeiros externos, segundo sua administração, e Trump e sua família não têm nenhum controle sobre quais transações são realizadas.
Os ativos do líder do país são “mantidos em contas totalmente discricionárias administradas por instituições financeiras independentes”, disse a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly.
“O presidente Trump age apenas no melhor interesse do público americano – e é por isso que ele foi reeleito para este cargo por ampla maioria, apesar de anos de mentiras e falsas acusações contra ele e seus negócios por parte da mídia de notícias falsas. Não há conflitos de interesse.”
Mas, diferentemente de muitos presidentes anteriores, Trump não colocou seus ativos em um fundo fiduciário cego – o que significa que ele não pode saber quais ações seus gestores financeiros estão comprando ou vendendo. Não está claro se Trump tinha conhecimento de alguma de suas compras quando publicou sobre as empresas.
Embora Trump tenha apoiado a proibição da negociação de ações por participantes do Congresso, ele criticou os esforços para aplicar o mesmo padrão aos presidentes.
“Isso é um desastre ético”, disse Dan Greenberg, pesquisador jurídico sênior do Instituto Cato, de orientação libertária, que atuou como consultor de políticas do Departamento do Trabalho americano durante o primeiro mandato de Trump.
O presidente americano é um usuário frequente do Truth Social e negocia ações, tendo feitom mais de 6 mil posts no ano passado e frequentemente compartilhado suas opiniões sobre grandes corporações, enquanto seus executivos realizaram mais de 20 mil compras ou vendas de ações no mesmo período.
Não há evidências de que Trump tenha publicado sobre empresas específicas para impulsionar seu portfólio. A grande maioria das negociações de Trump não foi seguida por posts relevantes no Truth Social.
Ainda assim, existem dezenas de casos em que Trump promoveu empresas nas quais a maioria de seus seguidores não tinha ideia de que ele havia investido recentemente.
A CNN usou inteligência artificial para comparar um banco de dados de posts de Trump no Truth Social com uma lista completa de negociações de ações divulgada em sua declaração financeira anual, procurando por casos em que os posts mencionavam empresas nas quais ele havia comprado ou vendido ações recentemente. Os repórteres então revisaram manualmente centenas de posts sinalizados e confirmaram se cada um era relevante.
A análise revelou que Trump fez pelo menos 44 compras de ações de 21 empresas diferentes na semana anterior à publicação de uma mensagem elogiosa no Truth Social sobre as empresas, seus executivos ou seus produtos. Muitas das publicações incluem comentários do próprio Trump, enquanto outras citam CEOs das empresas ou links para artigos de notícias favoráveis.
O presidente dos EUA também fez outras compras de ações pouco antes de enviar mensagens mais genéricas, destacando mudanças políticas que poderiam beneficiar essas empresas, mas sem mencioná-las especificamente.
Em contrapartida, Trump fez pelo menos 17 compras de ações de oito empresas e, logo em seguida, publicou mensagens negativas sobre as empresas ou seus executivos.
Órgãos de fiscalização governamental afirmam que as publicações de Trump nas redes sociais e o alto volume de negociações levantam questões sobre um possível conflito de interesses do presidente – em um momento em que o Congresso debate se presidentes e legisladores devem ter permissão para negociar ações.
Dylan Hedtler-Gaudette, vice-presidente interino de políticas e assuntos governamentais do Project on Government Oversight, classificou a combinação de publicações em redes sociais e negociação de ações por Trump como “um estudo de caso sobre conflitos de interesse presidenciais”.
“É por isso que sempre defendemos que funcionários do governo não devem poder negociar ações enquanto estiverem no cargo”, disse ele. “Isso definitivamente se aplica ao presidente e ao poder desproporcional da função.”
Mesmo que Trump não esteja ativamente direcionando negociações ou trabalhando para aumentar seu portfólio, argumentou Hedtler-Gaudette, “a aparência de impropriedade” leva a “uma erosão gradual” da confiança pública em funcionários eleitos.
A declaração financeira de Trump, divulgada no mês passado pelo Escritório de Ética Governamental, lista mais de 21.000 transações financeiras realizadas ao longo de 2025, em sua maioria compras e vendas de ações. O valor de cada transação é relatado em faixas amplas.
A carteira de ações de Trump é mantida em contas discricionárias, o que confere às suas corretoras total autoridade sobre as negociações e impede que Trump e seus familiares solicitem ou realizem transações.
“Nem o presidente Trump, nem sua família, nem a Organização Trump desempenham qualquer papel na seleção, direção ou aprovação de investimentos específicos”, afirmou um porta-voz da Organização Trump em comunicado. “Eles não recebem aviso prévio sobre atividades de negociação e não opinam sobre decisões de investimento ou gestão de portfólio de qualquer tipo.”
A forma como os ativos de Trump estão estruturados difere da de todos os seus antecessores recentes. Todos os presidentes das últimas cinco décadas que possuíam ações ou empresas individuais colocaram esses ativos em um fundo fiduciário cego, o que significa que não tinham conhecimento das ações específicas que possuíam.
Trump contrariou essa tendência, optando por colocar seus ativos em um fundo fiduciário com seu filho, Donald Jr., como administrador. Isso significa que, mesmo que Trump não possa direcionar as negociações, ele tem conhecimento de suas participações e declara ações e transações individuais em suas demonstrações financeiras.
Greenberg afirmou que o uso de contas discricionárias, ou seja, em que o gestor tem liberdade de tomar decisões baseadas em análise própria, administradas por consultores externos por Trump, “não serve de pretexto”, pois não se trata de um verdadeiro fundo fiduciário cego.
A CNN descobriu que as sobreposições entre as negociações de Trump e suas postagens começaram mesmo antes de ele assumir o cargo. Em 6 de janeiro de 2025, Trump comprou pelo menos US$ 1.000 em ações da US Steel e, no mesmo dia, publicou no Truth Social que suas tarifas planejadas “tornariam a empresa muito mais lucrativa e valiosa”.
“Não seria ótimo se a US Steel, que já foi a maior empresa do mundo, liderasse novamente a corrida rumo à grandeza?”, escreveu Trump. “Tudo pode acontecer muito rapidamente!” Não está claro se a compra ou a postagem ocorreu primeiro naquele dia.
Entre as ações mais negociadas por Trump estava a Tesla. Ele fez mais de 50 compras de ações da Tesla no ano passado, investindo pelo menos US$ 4 milhões, além de realizar algumas vendas. Várias dessas compras — totalizando pelo menos US$ 17 mil — foram feitas dias antes de Trump postar vídeos dele e do CEO da Tesla, Elon Musk, admirando veículos da Tesla na Casa Branca, em março, e promover os planos da empresa de aumentar a produção nos EUA.

No entanto, durante o verão, Trump e Musk tiveram um desentendimento acirrado, com Trump sugerindo que seu governo poderia cortar os subsídios governamentais para a Tesla e até mesmo especulando publicamente sobre a deportação de Musk. O presidente continuou fazendo várias compras de ações da Tesla durante esse período.
Então, em 23 de julho, Trump fez uma de suas maiores compras individuais de ações da Tesla no ano, comprando entre US$ 500.000 e US$ 1 milhão em ações da empresa. No dia seguinte, ele publicou um post no Truth Social amenizando a disputa com seu antigo aliado.
“Todos estão dizendo que vou destruir as empresas de Elon, cortando parte, se não todos, os grandes subsídios que ele recebe do governo dos EUA”, escreveu ele. “Isso não é verdade! Quero que Elon Musk e todas as empresas do nosso país prosperem, aliás, prosperem como nunca antes!”
Em algumas ocasiões, Trump comprou ações de várias empresas sobre as quais publicou em conjunto. Em 10 de março, ele comprou entre US$ 15.000 e US$ 50.000 em ações da GE Aerospace, Eli Lilly e Apple. Dois dias depois, ele mencionou as três empresas em uma única publicação no Truth Social, citando um artigo da Fox News que destacava seus investimentos recentemente anunciados em indústrias americanas.
O enorme volume de ações que o presidente e empresário americano negocia significa que não está claro se suas compras e mensagens estão relacionadas. Em 10 de março, além das três empresas sobre as quais publiquei, Trump também comprou ações de mais de 300 outras empresas.
Embora muitas das compras mais significativas de Trump tenham sido de empresas de tecnologia proeminentes, ele também negociou e publicou sobre marcas de consumo menores. Em 31 de julho, ele comprou entre US$ 15 mil e US$ 50 mil em ações da varejista de roupas American Eagle Outfitters. Quatro dias depois, publicou uma mensagem elogiando o anúncio da marca com a atriz Sydney Sweeney, que havia gerado controvérsia online.
“Sydney Sweeney, uma republicana registrada, tem o anúncio ‘MAIS QUENTE’ de todos”, escreveu Trump. “É para a American Eagle, e as calças jeans estão vendendo como água. Vai lá, Sydney!”
Nem todas as mensagens que o líder do país publicou sobre empresas nas quais havia investido recentemente foram elogiosas.
Por exemplo, Trump fez várias compras de ações da Comcast antes de publicar mensagens difamando a empresa como “Concast” (Con em português, significa golpe) e criticando seus canais de notícias, NBC e MSNBC.
Da mesma forma, ele comprou pelo menos US$ 1,3 milhão em ações da Microsoft dias antes de uma publicação atacando a empresa por contratar um ex-funcionário do governo Biden.
Em outras ocasiões, Trump publicou mensagens relacionadas a empresas nas quais havia comprado ações recentemente ou a seus produtos, sem mencioná-las especificamente.
Em 18 de agosto, Trump comprou pelo menos US$ 250 mil em ações de duas empresas do setor de defesa envolvidas na produção de componentes do caça F-22 Raptor – RTX e Boeing – além de pelo menos US$ 100 mil em ações de uma terceira, a Northrop Grumman.
(Ele também vendeu pelo menos US$ 100 mil em ações da Lockheed Martin, principal contratada do caça, no mesmo dia.) Dias depois, ele publicou um vídeo do F-22 Raptor, proclamando-o “o maior e mais belo caça já fabricado”.
O presidente dos Estados Unidos já afirmou que apoiaria um projeto de lei para proibir a negociação de ações por membros do Congresso, mas se opôs aos esforços para aprovar um projeto mais abrangente que também restringiria a negociação de ações pelo presidente e vice-presidente.
Após o senador republicano Josh Hawley se juntar aos democratas no ano passado para apoiar um projeto de lei que proibiria a negociação de ações tanto por membros do Congresso quanto pelo presidente, Trump reagiu com veemência, escrevendo: “Não acho que os verdadeiros republicanos queiram ver seu presidente, que obteve um sucesso sem precedentes, sendo ALVO por causa dos caprichos de um senador de segunda categoria chamado Josh Hawley!”
Nos últimos meses, o Congresso americano tem debatido projetos de lei mais limitados que proibiriam apenas as negociações por legisladores.
Gary Kalman, diretor executivo da Transparência Internacional EUA, observou que presidentes anteriores buscaram evitar conflitos de interesse financeiros – Jimmy Carter chegou a colocar voluntariamente a propriedade de sua fazenda de amendoim em um fundo fiduciário cego.
“O fato de termos isentado a única pessoa que não pode se retirar em caso de conflito de interesses deveria ser um grande sinal de alerta para todos”, disse Kalman. “Precisamos eliminar essa brecha”.
(Com informações de Em Steck, da CNN)

