Um dos comentários mais infames feitos sobre a Guerra do Iraque foi a previsão do então vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, poucos dias antes do início do conflito, de que as tropas americanas seriam “recebidas como libertadoras”.
Ao longo dos anos, esse comentário passou a simbolizar não apenas as promessas não cumpridas do governo George W. Bush, mas também suas aparentes falhas em se preparar e compreender a guerra que iniciou. Como foi possível a audácia de prever algo que se revelou tão equivocado?
O histórico do governo Trump em relação à guerra com o Irã está repleto de exemplos semelhantes.
Nos últimos quatro meses e meio, o presidente americano Donald Trump e seus assessores fizeram previsões confiantes que rapidamente se mostraram falsas. Muitas vezes, parece que Trump, em particular, tem pouca ou nenhuma compreensão do que está acontecendo com a guerra que ele iniciou.
Mas os comentários equivocados não se limitam a ele. Aqui estão alguns dos principais exemplos:
“Os EUA controlarão o Estreito de Ormuz”

Trump chocou o mundo nesta segunda-feira (13) ao anunciar com confiança que os Estados Unidos em breve assumiriam o controle do Estreito de Ormuz como seu “guardião” e cobrariam dos países uma taxa de 20% sobre a carga que passasse pelo estreito.
Mas isso contradizia o que o governo havia dito anteriormente sobre a cobrança de pedágio no estreito.
“Sempre dissemos que um sistema de pedágio no estreito seria inaceitável. Mas não somos só nós que dizemos isso; o mundo inteiro já disse isso”, afirmou o Secretário de Estado americano Marco Rubio em maio. Ele também disse que seria “completamente ilegal, aliás”.
Os comentários de Trump na segunda também levantaram a possibilidade de os Estados Unidos precisarem de uma presença militar permanente para controlar o estreito nos próximos anos.
Em outras palavras: parecia totalmente impraticável. E, de fato, apenas um dia depois, Trump voltou atrás.
O fato de o presidente sequer cogitar algo tão extremo e difícil sugere que ele não tem muita noção do que é viável. A CNN noticiou na terça-feira (14) que assessores se esforçaram para dissuadi-lo da ideia.
“A guerra será curta”

Trump previu desde o início que a guerra seria breve, projetando repetidamente que duraria “de quatro a cinco semanas”.
Mais de dois meses depois, no 1º de maio, ele disse que “não deveria durar muito”. Já se passaram quatro meses e meio e a guerra não tem fim à vista.
Muitas das previsões iniciais não eram definitivas, e o governo argumenta que a guerra não estava acontecendo durante o cessar-fogo, que Trump declarou encerrado posteriormente. Mas as projeções iniciais das autoridades sugeriam que o governo antecipava um tipo de guerra muito diferente.
“Os líderes do Irã estão repentinamente racionais”

Após os EUA e o Irã concordarem com um memorando de entendimento no mês passado, Trump e o vice-presidente americano, JD Vance, falaram como se os líderes iranianos tivessem repentinamente virado seres iluminados.
“Estamos lidando com pessoas que considero muito racionais”, disse Trump em 16 de junho, acrescentando que os líderes iranianos eram “agradáveis” e “não radicalizados”.
Vance disse em entrevista ao apresentador Jake Tapper, da CNN: “O mais interessante sobre o progresso que fizemos nas últimas semanas é ver pessoas dentro do sistema iraniano, a alta liderança, até mesmo oficiais da Guarda Revolucionária Islâmica, dizendo: ‘Sabe de uma coisa? Podemos ter alguma animosidade, podemos ter alguma desconfiança, mas reconhecemos que a maneira como temos feito negócios com os Estados Unidos por 47 anos foi um erro’”.
Não demorou muito para o governo se arrepender dessas palavras. Após o cessar-fogo e o memorando desmoronado na semana passada, Trump chamou os líderes do Irã de “malucos”, “malignos”, “doentes”, “jogadores sujos” e “escória”.
Não está claro se Trump e Vance acreditavam no que estavam dizendo antes ou se estavam apenas sendo gentis. Mas, de qualquer forma, seus comentários rapidamente passaram a parecer ingênuos — como muitos previram na época.
“O povo iraniano pode se rebelar”

Quando lançou os primeiros ataques ao Irã no final de fevereiro, Trump estava focado na ideia de que o povo iraniano poderia se revoltar e mudar o regime. Ele até concluiu seu pronunciamento naquela noite enfatizando essa ideia.
“Convoco todos os patriotas iranianos que anseiam por liberdade a aproveitarem este momento — a serem corajosos, ousados, heroicos e a retomarem o controle do seu país”, disse Trump. “A América está com vocês. Fiz uma promessa a vocês e a cumpri. O resto dependerá de vocês, mas estaremos lá para ajudar.”
Mas, quando a revolta popular não aconteceu, Trump rapidamente abandonou o assunto — como se nunca tivesse sido seu objetivo. E hoje, ele fala como se fosse impensável.
“A menos que eles pudessem ser completamente armados, eu nunca pensei que eles teriam esse tipo de levante, porque essas pessoas são violentas”, disse Trump ao apresentador de rádio Hugh Hewitt na segunda. “A chamada liderança deles é muito violenta.”
Mas Trump claramente considerou isso uma possibilidade em determinado momento. Aliás, foi um ponto crucial em sua argumentação.
“O Estreito de Ormuz não era um problema”

Quando o Irã fez sua grande jogada para ganhar vantagem, fechando o Estreito de Ormuz, o governo inicialmente minimizou a situação e sugeriu que a medida não duraria.
“É algo com que estamos lidando; temos lidado com isso”, disse o Secretário de Defesa dos EUA Pete Hegseth em 13 de março. Ele acrescentou que as pessoas “não precisam se preocupar com isso”.
Alguns dias antes, em 9 de março, Trump disse que o estreito “não nos afeta de verdade” porque “temos muito petróleo”.
“O Estreito de Ormuz continuará seguro”, acrescentou Trump.
O estreito não permaneceu — ou não tem sido consistentemente — seguro. E embora seja verdade que outros países tenham sido mais impactados pelo fechamento do estreito pelo Irã, o fechamento também causou danos significativos à economia dos EUA.
Isso também está dando ao Irã maior poder de barganha sobre Trump.
“Preços da gasolina cairão rapidamente para menos de US$ 3 por galão”

Ainda em relação ao estreito, o governo fez muitas promessas equivocadas sobre os preços da gasolina.
Em uma entrevista com Tapper em 8 de março, o Secretário de Energia americano, Chris Wright, disse que os preços da gasolina voltariam a ficar abaixo de US$ 3 por galão “em breve”.
Questionado sobre quando exatamente, Wright disse que, mesmo no “pior cenário”, seriam “semanas” em vez de “meses”.
A situação tem sido ainda pior do que o pior cenário previsto por Wright. Mais de quatro meses depois, a gasolina ainda não está abaixo de US$ 3 por galão. Os preços não caíram abaixo de US$ 3,70 na média nacional, de acordo com o Gas Buddy, aplicativo utilizado para encontrar postos de gasolina, e agora estão subindo novamente após a retomada das hostilidades.
A previsão equivocada ressalta como o governo parece não ter previsto completamente o tamanho do estrago que o Irã poderia causar fechando o Estreito de Ormuz.
“O Irã está desesperado para fechar um acordo”
Trump afirmou dezenas de vezes que Teerã estava “implorando” por um acordo, que estava “desesperada” e “morrendo” de vontade de fechá-lo, e que queria um acordo “demais”.
Ele também previu rotineiramente que um acordo estava prestes a ser fechado, mas os eventos dos últimos três meses mostraram o contrário. O Irã não só se recusou a fazer concessões muito significativas, como também descartou o que pareciam ser termos bastante favoráveis no memorando de entendimento do mês passado.
Talvez seja apenas uma ilusão ou uma manobra do presidente americano, mas isso sugere que ele não entende as motivações de seu adversário.
“Os EUA tinham livre acesso ao espaço aéreo iraniano”

Desde os primeiros dias da guerra, Trump e Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos Estados Unidos, afirmaram que a derrota militar do Irã era tão absoluta que os Estados Unidos poderiam basicamente voar para qualquer lugar que quisessem sem risco.
Em uma coletiva de imprensa em 4 de março, Hegseth afirmou que os EUA e Israel “teriam controle total do espaço aéreo iraniano” em uma semana. “E o Irã não poderia fazer nada a respeito”, disse o Secretário de Guerra.
Trump repetiu a afirmação nas semanas seguintes. “Eles não têm equipamentos antiaéreos. Seus radares estão 100% destruídos”, disse o presidente. “Somos imparáveis como força militar.”
Mas, no início de abril, o Irã conseguiu abater duas aeronaves americanas.
Por que o Estreito de Ormuz é tão importante para a economia do mundo?

