Normalmente, uma acusação como a que o presidente Donald Trump fez contra a China em horário nobre nesta semana poderia sinalizar uma ruptura importante nas relações com Pequim.
“A República Popular da China realizou o que se acredita ser a maior violação de dados eleitorais da história”, declarou Trump na quinta-feira (16), demonstrando ressentimento pessoal pelo fato de que — segundo uma visão minoritária da comunidade de inteligência — o país havia tentado minar sua candidatura em 2020.
“O governo chinês queria que o presidente dos EUA perdesse a próxima eleição”, alegou ele. “A razão pela qual queriam que eu perdesse é que sabiam que eu estava atento às suas manobras, impus tarifas de bilhões e bilhões de dólares e construí as forças armadas mais poderosas do mundo.”
As afirmações eram graves — embora não fossem novas nem totalmente embasadas em provas — e provocaram indignação imediata de autoridades chinesas. No entanto, no discurso de Trump, elas não vieram acompanhadas de qualquer sugestão de que ele planejasse punir o governo chinês por suas supostas ações.
Já no dia seguinte, uma autoridade da Casa Branca informou que os preparativos para a suntuosa visita de Estado do líder chinês Xi Jinping a Washington, prevista para ocorrer em dois meses, continuavam em ritmo acelerado. A fonte não respondeu quando questionada se Trump planejava alguma represália contra a China em resposta ao que ele classificou como uma violação de dados de proporções históricas.
E Trump, ao discursar em uma recepção da Copa do Mundo em Nova York, aventou a ideia de que, na próxima vez que os EUA sediassem o torneio, deveriam deixar de lado seus atuais coanfitriões norte-americanos e, em vez disso, formar uma parceria com Pequim.
“Fazemos China e Estados Unidos. Assim, há um voo curto entre os jogos. Os jogadores adorariam isso”, disse ele, atribuindo a ideia ao presidente da FIFA, Gianni Infantino. Ele não mencionou suas alegações sobre a eleição.
A situação foi diferente para as autoridades de inteligência americanas que, segundo Trump, teriam ocultado dele as informações sobre a China durante seu primeiro mandato. Ele encarregou quatro agências federais distintas de investigar o caso, instruindo-as a “demitir os envolvidos no encobrimento e a apresentar denúncias criminais, se apropriado, contra essas pessoas”.
A diferença de abordagem deixou evidente a obsessão de Trump em rediscutir a eleição de 2020, na qual foi derrotado por Joe Biden. No entanto, isso também demonstrou que ele tem pouco interesse em perturbar o equilíbrio — agora frágil — com Xi, após um primeiro ano de retorno ao cargo marcado por tensões.
De certa forma, o discurso de Trump na quinta-feira marcou um afastamento do tom que ele vinha adotando nos últimos meses em relação à China e ao seu líder, com quem buscou cultivar laços pessoais ao longo de vários encontros presenciais.
“Sou um grande fã do Presidente Xi”, disse Trump na cúpula da Otan na Turquia, elogiando o país por não se envolver diretamente na guerra do Irã, apesar dos receios no início da guerra de que Pequim pudesse fornecer assistência militar a Teerã.
Depois de Trump ter apresentado as suas acusações eleitorais na noite de quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China respondeu dizendo que as alegações não tinham “nenhuma base factual”.
“A China adere ao princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países. Não temos interesse em interferir nas eleições dos EUA e jamais o fizemos”, disse o porta-voz Lin Jian, criticando os EUA e aludindo ao impacto negativo que tais alegações poderiam ter na relação entre os países.
“Instamos os EUA a refletirem sobre sua própria conduta, a cessarem a difamação indevida da China e a agirem de maneira mais propícia às relações entre a China e os EUA.”
A estabilização das relações tem sido uma prioridade para o governo Trump recentemente, após um ano difícil marcado por disputas tarifárias. Xi recebeu Trump em Pequim para uma visita de Estado repleta de pompa em maio, e os dois líderes planejam se reunir novamente em Washington no final de setembro.
Trump também sugeriu que poderá retornar à China este ano para a cúpula da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), em novembro, em Shenzhen. Além disso, Xi poderá visitar os Estados Unidos para a cúpula do G20 que Trump sediará em Miami.
Em todos os seus encontros com Xi no último ano, Trump jamais mencionou publicamente tentativas chinesas de invadir a infraestrutura dos EUA, muito menos dados eleitorais sensíveis, apesar de especialistas em segurança cibernética do FBI estarem investigando múltiplas campanhas sofisticadas de ciberespionagem chinesa voltadas para segredos do governo e de empresas dos EUA.
Os documentos divulgados pelo governo Trump na quinta-feira, embora não apresentassem provas de fraude eleitoral em larga escala ou de tentativas de alterar votos, reforçaram a voracidade com que os serviços de inteligência chineses têm coletado informações sobre americanos.
Além disso, forneceram novas evidências da extensão das ações que hackers chineses teriam realizado para espionar autoridades de alto escalão do governo dos EUA e a campanha presidencial de Joe Biden em 2020.
Um grupo de hackers chinês utilizava técnicas para monitorar as contas de e-mail de membros da equipe de campanha de Biden, sugerindo que “os operadores chineses estão mapeando a rede-alvo para abordagens futuras, o que poderia incluir a inclusão das contas de e-mail da equipe de campanha no sistema de inteligência das forças armadas chinesas para fins de coleta”, afirma um relatório de inteligência.
Outros relatórios do conjunto de documentos apontam que agentes do governo chinês vêm baixando informações de registro de eleitores em diversos estados. Em alguns casos, as informações já estavam disponíveis publicamente. Não há menção de que a China tenha explorado ativamente os dados de eleitores coletados ou roubados, nem de que tenha acessado sistemas de maneira que permitisse alterar os votos das pessoas.
Os documentos retratam serviços de inteligência chineses que coletam praticamente qualquer informação possível sobre centenas de milhões de americanos.
Isso não é uma revelação nova. Desde a invasão dos sistemas do Escritório de Gestão de Pessoal (OPM) em 2015 e ataques subsequentes a prestadores de serviços de saúde e outras empresas dos EUA, autoridades de inteligência americanas alertam há muito tempo que espiões chineses possuem um panorama detalhado de dezenas — se não centenas — de milhões de americanos.
Em 2024, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, afirmou que o país havia detectado evidências de tentativas chinesas de “influenciar e, possivelmente, interferir” nas eleições americanas que se aproximavam, apesar de um compromisso anterior do líder Xi Jinping de não fazer isso.
No passado, os EUA impuseram sanções financeiras e buscaram o indiciamento criminal de hackers chineses patrocinados pelo Estado.
No entanto, após Trump afirmar que o governo chinês havia obtido dados de 220 milhões de eleitores americanos — o que geraria um “pesadelo sem precedentes para a segurança eleitoral” —, há poucos indícios de que ele esteja planejando adotar medidas punitivas semelhantes.
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