O mercado futuro do leite começa a ganhar espaço no Brasil e se apresenta como alternativa para reduzir a volatilidade dos preços e oferecer maior previsibilidade de renda aos produtores.
Lançado em maio deste ano, o instrumento financeiro foi um dos principais temas da reunião da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite do Sistema FAEP, realizada nesta semana para discutir os desafios e oportunidades do setor.
A ferramenta permite que produtores e indústrias negociem contratos para entrega futura do leite com preços previamente definidos. Na prática, funciona como um mecanismo de proteção contra oscilações do mercado, conhecido como hedge, já amplamente utilizado em cadeias como soja, milho e boi gordo.
Segundo o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a expectativa é de que o instrumento traga mais estabilidade para uma atividade historicamente marcada por variações de preços.
“O mercado futuro já é uma realidade para outras commodities agrícolas. É questão de tempo para que os pecuaristas se familiarizem e passem a usufruir desses benefícios”, afirmou.
O presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite, Eduardo Lucacin, destaca que a adoção da ferramenta depende, principalmente, de uma boa gestão da propriedade.
“É preciso conhecer bem o negócio, os custos de produção e identificar o momento adequado para travar os preços. Quanto mais informação o produtor tiver, maior será a eficiência da ferramenta”, avalia.
Esforço conjunto
O desenvolvimento do mercado futuro do leite contou com a participação da StoneX Leite Brasil, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do próprio Sistema FAEP.
De acordo com Marianne Tufani, gerente de Riscos da StoneX Leite Brasil, cerca de 70% dos agentes do mercado internacional de lácteos já utilizam contratos futuros para administrar riscos de preços.
Ela explica que o primeiro passo para acessar esse mercado é abrir uma conta em uma corretora especializada, procedimento que exige análise documental, mas não gera custos para o produtor.
Energia e sanidade preocupam produtores
Além do mercado futuro, os integrantes da comissão discutiram problemas estruturais que continuam afetando a competitividade da atividade leiteira.
Entre eles, os produtores voltaram a relatar prejuízos causados por falhas no fornecimento de energia elétrica, como perda de leite refrigerado e danos em equipamentos utilizados na ordenha e no armazenamento da produção.
Segundo Lucacin, o Sistema FAEP tem levado as reclamações às autoridades, mas o setor também avalia alternativas para reduzir a dependência da rede elétrica e minimizar os prejuízos nas propriedades.
Na área sanitária, o combate à brucelose foi apontado como uma prioridade para ampliar a competitividade da pecuária leiteira brasileira.
Os produtores também discutiram estratégias para ampliar a rentabilidade da cadeia por meio da valorização dos derivados do leite, especialmente produtos de maior valor agregado, como proteínas do soro (whey) e concentrados proteicos.
A avaliação da comissão é que, além de ampliar a adoção de instrumentos de gestão de risco, a cadeia leiteira precisará investir em inovação e agregação de valor para aumentar sua competitividade nos próximos anos.

