O Brasil está sem rumo no mundo. E a falta de uma grande estratégia danifica o papel do país no cenário internacional.
Uma grande estratégia orienta uma nação no longo prazo, envolvendo todos os setores relevantes da sociedade na inserção internacional. E o que ocorre no mundo hoje? Uma disputa hegemônica entre Estados Unidos e China.
Brasília encontra boas relações com essas duas grandes potências. É um exportador importante para os chineses, especialmente de alimentos, energia e minério de ferro. Ao mesmo tempo, é um grande importador de produtos manufaturados de Pequim, enquanto também importa bastante dos americanos. Há uma grande parcela de investimento estrangeiro vindo de ambos.
Especialmente com Washington, o Brasil detém vínculos permanentes nos campos de cooperação tecnológica e defesa.
Diante desse cenário, a orientação para os brasileiros seria olhar esses parceiros de maneira equilibrada. No entanto, infelizmente, a falta dessa grande estratégia faz com que a tomada de decisão, a implementação da política externa e a reação a medidas desses nossos parceiros sejam dadas pelo governo de plantão.
O grande exemplo do momento é o novo tarifaço americano. As reações estão muito mais orientadas pelo calendário eleitoral e pela repercussão doméstica das propostas do Palácio do Planalto do que pelo longo prazo do interesse nacional.
Esse lado, possivelmente, orientaria uma maior prudência e comedimento do que foi visto até o momento. A opção por um engajamento retórico, com troca de acusações e rechaço à posição americana, leva a uma piora da situação negocial.
Da mesma maneira com a China: quanto mais pudermos manter o pragmatismo nas parcerias mais próximos ficaríamos do equilíbrio, assim como a Argentina de Javier Milei. Milei é, claramente, do ponto de vista político-ideológico, associado aos Estados Unidos, mas vende diversos produtos para a China.
De um lado, ficam os valores, a ideologia e as conveniências das relações com Donald Trump; do outro, o faturamento, as entregas comerciais e os investimentos com Pequim. Um não atrapalha o outro em Buenos Aires.
O Brasil, no entanto, optou por uma linha de confrontação, em que o interesse nacional dá espaço para a conveniência eleitoral. Esse não é um bom rumo para a política externa – algo que não é exclusividade do governo atual.
As forças de oposição, igualmente, não têm uma visão ampla do Brasil e estão desprovidas de mecanismos, mesmo que vençam as eleições, de estabelecer esse equilíbrio.
Só um grande acordo nacional e a formulação de uma grande estratégia para inserir o Brasil no mundo podem prover essa harmonia.
* Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de Geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de Projetos Especiais e de Assuntos Internacionais Estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.

