Prestes a completar cinco décadas de história, “Xica da Silva”, longa de Cacá Diegues que revolucionou o audiovisual nacional ao redefinir o protagonismo feminino e negro nas telas, retorna às salas de cinema nesta quinta-feira (16), com cópia restaurada pela Sessão Vitrine Petrobras.
Muito além do prestígio em festivais e da aclamação crítica, o filme eternizou a atuação de Zezé Motta, 82, consagrando-a como uma das principais potências da indústria brasileira ao atrair mais de 3 milhões de espectadores diante das telonas em 1976.
À CNN Brasil, a atriz celebra não apenas a restauração física de uma película histórica, mas a vitalidade de uma personagem que definiu sua vida e carreira. Rever a si mesma no auge da juventude e da ousadia, agora com mais nitidez, a faz despertar para sentimentos ainda mais profundos.
“É uma emoção difícil de colocar em palavras. Poucos artistas têm o privilégio de ver uma obra realizada há cinquenta anos voltar às salas de cinema com uma qualidade tão impressionante. Rever esse filme restaurado em 4K é como reencontrar uma parte muito importante da minha vida. É olhar para aquela jovem atriz e agradecer por tudo o que essa personagem me proporcionou”, conta.
Segundo Zezé, ver a obra voltar às telas é a oportunidade perfeita para iniciar novos diálogos. “Cada geração assiste a um filme com um olhar diferente, faz novas perguntas e constrói novas interpretações. Espero que os jovens enxerguem a importância histórica de ‘Xica da Silva’, mas que também sintam liberdade para refletir sobre suas contradições. O cinema vive justamente dessa conversa entre diferentes épocas”, garante.
Ainda que o título tenha subvertido a imagem histórica da mulher negra no país ao colocar uma protagonista que usou da ironia, da inteligência e do próprio corpo para desafiar o sistema colonial, Motta revela que, no calor das filmagens, não tinha dimensão do impacto revolucionário que estava prestes a causar.
“Eu estava muito concentrada em fazer o melhor trabalho que podia. Tinha consciência da importância da personagem, mas não imaginava que o filme alcançaria tantas pessoas no Brasil e no mundo, nem que continuaria sendo debatido cinquenta anos depois. O tempo foi mostrando a dimensão histórica daquela obra”, recorda.

Entre os avanços e os nós do tempo
Ao confrontar o Brasil de 1976 com o de 2026, a artista compartilha ainda uma leitura madura e honesta sobre as feridas sociais, pontuando que os avanços são reais, assim como as barreiras que ainda insistem em persistir na luta contra o preconceito e o racismo.
“Nós avançamos muito na discussão sobre representatividade. Hoje existe uma consciência maior sobre a importância de ver pessoas negras ocupando espaços de protagonismo no cinema, na televisão, na política e em tantas outras áreas”, comenta.
“Mas temos um longo caminho pela frente. O racismo estrutural continua presente, as oportunidades ainda não são iguais para todos e as mulheres negras seguem enfrentando desafios muito específicos. Houve avanços importantes, mas ainda há muito trabalho a ser feito”, adiciona.
Essa força para debater e lutar, inclusive, foi alimentada pela própria personagem. “O filme mudou a minha carreira, mas também mudou a minha maneira de enxergar a profissão e a responsabilidade que ela carrega. Aprendi que a arte pode abrir caminhos, provocar reflexões e representar pessoas que, muitas vezes, nunca tinham se visto naquele lugar. A Xica me deu coragem, confiança e uma consciência ainda maior do papel que eu poderia exercer como artista”.
Diferente de outros atores que se sentem sufocados por papéis gigantescos, a relação da atriz com o clássico é de puro afeto. “Nunca enxerguei a Xica como um peso. Tenho muito carinho por essa personagem porque ela abriu portas para mim e, de certa forma, para muitos outros artistas negros que vieram depois”, diz.

Do cinema à Marquês de Sapucaí: o legado de Xica da Silva continua
O impacto cultural de Xica da Silva é tão perene que, além de ocupar as salas de cinema, a personagem será o tema central do desfile do Salgueiro no Carnaval de 2027. Uma coroação que celebra a união indissociável entre o cinema e o samba.
“O Salgueiro tem uma história muito bonita com a cultura brasileira e com a valorização da identidade negra. Ver a Xica da Silva chegar à Marquês de Sapucaí mostra que essa personagem ultrapassou as telas e passou a fazer parte do imaginário do nosso país. Tenho certeza de que será um desfile emocionante e uma grande celebração da nossa história, da nossa cultura e da força da mulher negra”, vibra Zezé.
Se a mítica Xica de 1976 pudesse sussurrar um recado aos espectadores que vão redescobri-la em 2026, Zezé tem certeza do conselho que ela daria.
“Assistam sem medo de refletir. Olhem para essa história, entendendo o tempo em que ela foi contada, mas também trazendo as perguntas do presente. Que o filme desperte emoção, debate e curiosidade. E, acima de tudo, que nos lembre da importância de preservar a nossa memória, porque conhecer a nossa história é o primeiro passo para construir um futuro melhor”, finaliza.
O desafio de apresentar um clássico a 2026
Dar nova vida ao trabalho cinematográfico e garantir que ele fosse entregue ao público com o devido respeito e acessibilidade foi a grande missão do relançamento. Diretora da Vitrine Filmes, Silvia Cruz é quem capitaneia esse movimento histórico.
“Para nós, é uma grande responsabilidade, mas também uma honra. ‘Xica da Silva’ é uma obra de suma importância para a história do cinema brasileiro e seu relançamento vai muito além da celebração dos 50 anos do filme, é também uma homenagem ao legado de Cacá Diegues e aos 60 anos de carreira de Zezé Motta”, destaca à CNN Brasil.
A executiva aponta que a estratégia de distribuição foi desenhada cuidadosamente para tocar tanto os saudosistas quanto a nova geração de cinéfilos.
“O grande desafio, aqui, é aproximar esse clássico do público de 2026 por meio de uma estratégia que dialogue tanto com quem já conhece o filme quanto com quem terá a oportunidade de descobri-lo pela primeira vez. Queremos que esse relançamento amplie o acesso à obra, estimule novos debates e reafirme a importância de preservar e manter vivo o patrimônio audiovisual brasileiro”.

Para democratizar o patrimônio, a Sessão Vitrine Petrobras preparou um circuito robusto, que une o primor técnico da restauração a exibições inclusivas e debates em cineclubes e escolas.
“A Sessão Vitrine Petrobras tem como principal objetivo formar público e democratizar o acesso ao audiovisual brasileiro. Relançar um clássico como ‘Xica da Silva’ vai muito além da sua restauração, também significa assegurar que esse patrimônio audiovisual possa ser vivido, apreciado e debatido pelo maior número possível de pessoas, ampliando o acesso ao cinema brasileiro”, conclui Silvia.
“Cidade de Deus”, “Estômago”: clássicos brasileiros ganham sequências

