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Yara vê janela de compras de fertilizantes se fechar com atraso de até 16%

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Yara vê janela de compras de fertilizantes se fechar com atraso de até 16%

A demora dos produtores rurais para fechar a compra de fertilizantes já compromete o abastecimento para a próxima safra de verão e deve reduzir o volume comercializado em 2026. O presidente da Yara Brasil, Marcelo Altieri, afirmou que o mercado já não tem tempo hábil para atender toda a demanda caso os agricultores decidam adquirir os insumos nas próximas semanas.

“O agricultor está aguardando o último momento para tomar a decisão. Esse é o problema: já não dá mais tempo“, afirmou.

Em entrevista exclusiva à CNN Agro, Altieri afirmou que a companhia projeta uma retração de cerca de 12% nas entregas de fertilizantes ao produtor neste ano. Segundo ele, os dados de mercado já mostram um atraso relevante nas compras em relação ao mesmo período de 2025.

De acordo com o executivo, as entregas de fertilizantes ao produtor devem cair de 49 milhões de toneladas, registradas pela ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos) no ano passado, para aproximadamente 43 milhões de toneladas neste ano.

“O que estamos entendendo do mercado é que, comparado com o ano passado, ele está entre 14% e 16% atrás. Eu acho que isso vai se materializar até o final do ano”, disse.

Altieri afirmou que, mesmo que os produtores decidam comprar agora, as limitações logísticas impedem que toda a demanda seja atendida a tempo. “Não vamos conseguir [entregar] porque toma tempo. Você traz o barco, chega, descarrega, tem congestionamento nos portos. Vai ser um desafio para o agricultor.”

O movimento já desloca parte das negociações para a safrinha de milho, cujo plantio começa em janeiro.

Fosfatados

Além do atraso nas compras, o mercado enfrenta preços elevados dos fertilizantes fosfatados, impulsionados por restrições na oferta global de matérias-primas.

O executivo explicou que a produção de fertilizantes fosfatados disputa insumos como enxofre e ácido fosfórico com a indústria de baterias e de transição energética. Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos restringem a oferta de enxofre. “Essa concorrência entre energia e indústria alimentar é o que está gerando uma distorção e mantendo os preços nesses níveis”, afirmou. 

“Essa restrição de matéria-prima faz com que a indústria não consiga produzir tudo o que a demanda exige”, disse. Os preços do fósforo nos portos giram em torno de US$ 900 por tonelada desde meados de abril. 

Segundo ele, a Yara reduziu sua dependência de regiões específicas ao diversificar a origem das matérias-primas e ampliar a oferta de produtos de maior valor agregado. A empresa também mantém produção local em suas unidades industriais no Rio Grande (RS), Ponta Grossa (PR) e Cubatão (SP).

Enquanto parte da indústria de fertilizantes, como a OCP e Mosaic, reduziu a produção de fosfatados diante do cenário de preços elevados e demanda mais fraca, a Yara manteve seu planejamento para 2026, segundo o executivo. Altieri, porém, afirmou que a principal incerteza está na capacidade de absorção do mercado.

“A gente manteve o que está planejado para o ano. Não estamos reduzindo a produção, mas não sabemos se a demanda vai vir porque a conta está difícil de fechar. Aí é uma decisão que está do lado do agricultor”, disse

Segundo o executivo, diante da pressão sobre a rentabilidade, parte dos produtores pode optar por reduzir as doses de fertilizantes ou buscar outras fontes de nutrientes.

Crédito 

Na avaliação de Altieri, a dificuldade financeira dos agricultores não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Segundo ele, os preços internacionais dos grãos deixaram de acompanhar a alta dos insumos, reduzindo a rentabilidade da atividade.

“É um problema do agricultor no mundo, porque os preços dos grãos não acompanharam a curva dos insumos. O que aconteceu na guerra da Rússia e Ucrânia foi que os preços dos grãos acompanharam e, então, a relação de troca se manteve, e o lucro para o agricultor era até melhor. Mas hoje isso não acontece”, disse.

O executivo também citou os elevados estoques globais de grãos, a menor atuação da China nas compras internacionais, os impactos da quebra de safra em parte dos produtores brasileiros na temporada anterior e o aumento do custo do crédito.

“Os desafios principais são rentabilidade, fluxo de caixa e acesso ao crédito”, afirmou. Segundo ele, o custo do financiamento ao produtor brasileiro hoje gira em torno de 24% ao ano. Altieri acrescentou que a incerteza climática também permanece no radar do setor, especialmente em ano de El Niño. 

Questionado sobre o aumento do financiamento privado diante das dificuldades de acesso ao crédito bancário, Altieri afirmou que a Yara manteve as mesmas linhas de crédito oferecidas aos produtores nos últimos anos. Contudo, o montante não foi ampliado.

Produção nacional

Altieri também avaliou que a produção nacional de fertilizantes deve continuar em queda, e atribuiu o movimento à perda de competitividade da indústria química brasileira frente a outros países. Segundo o executivo, o principal fator é o elevado custo da energia no Brasil, especialmente do gás natural, insumo importante para a produção de fertilizantes.

Como exemplo, ele afirmou que o gás natural no Golfo do México custa entre US$ 3 e US$ 5 por milhão de BTU, enquanto no Brasil o valor varia de US$ 15 a US$ 18 por milhão de BTU.

Além do custo da energia, Altieri afirmou que o Brasil enfrenta uma concorrência estrutural com fabricantes instalados no Hemisfério Norte. Segundo ele, como o país é o principal mercado consumidor de fertilizantes do Hemisfério Sul, empresas estrangeiras aproveitam o período de entressafra em seus mercados para manter as fábricas em operação abastecendo a demanda brasileira.

“Se você vai instalar uma indústria aqui, você tem que ser mais competitivo que os demais na safra baixa”, disse.

Na avaliação do executivo, o país reúne condições para ampliar a produção doméstica de fertilizantes, sobretudo pelo potencial de uso de fontes renováveis de energia, como hidrelétricas, energia solar, eólica e biometano. No entanto, ele defende a adoção de políticas de longo prazo para estimular novos investimentos no setor.

“O Brasil tem o mercado, mas não tem os incentivos nem um marco regulatório que ajude a trazer mais investimento”, disse.

Altieri citou o Plano Nacional de Fertilizantes como uma iniciativa positiva, mas afirmou que o fortalecimento da produção doméstica exige uma estratégia permanente. “Isso tem que ser um plano de país, um plano de longo prazo. Não esperar a crise acontecer. Cada vez que tem uma guerra ou uma distorção geopolítica, todo mundo lembra que poderia produzir mais no Brasil”, defendeu.

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