Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), avaliou que o Brasil tem uma carta importante a jogar nas negociações com os Estados Unidos diante da confirmação do tarifaço americano de 25% sobre produtos brasileiros. Ao WW, ele defendeu que as terras raras podem ser o principal ativo de barganha do país nesse processo.
A lógica da negociação
Azevêdo explicou que sua abordagem em negociações comerciais parte de um princípio fundamental: antes de definir o que se quer obter, é preciso entender o que a outra parte deseja. “Só na hora em que eu entendo o que eu posso oferecer para ele é que eu vou poder calcular, equilibrar o que eu quero para mim”, afirmou.
Para ele, não se trata de uma capitulação total, mas de uma troca equilibrada em que os dois lados saem ganhando.
O ex-dirigente da OMC relatou que, em conversas realizadas em Washington, recebeu uma mensagem direta de interlocutores americanos: “Os Estados Unidos querem do Brasil hoje uma coisa, terras raras. O resto é perfumaria.”
Segundo Azevêdo, essa sinalização representa uma oportunidade concreta de negociação que o Brasil ainda não teria aproveitado de forma adequada.
Obstáculos e oportunidades
Azevêdo ponderou, no entanto, que a postura brasileira de simplesmente recusar qualquer negociação envolvendo terras raras ignora limitações reais do país. “Qual é a sua capacidade de impor essas coisas quando o Brasil não tem capacidade de processamento? Não tem os compradores fechados porque o preço precisa ser acordado antes”, questionou.
Ele acrescentou que atingir um preço competitivo é especialmente difícil porque empresas chinesas praticam dumping para afastar novos concorrentes do mercado.
Apesar das dificuldades, Azevêdo enxerga um cenário de ganhos mútuos. Os Estados Unidos poderiam reduzir sua dependência da China no fornecimento desses minerais estratégicos, enquanto o Brasil poderia atrair capital e tecnologia para desenvolver sua capacidade de processamento e refinamento das terras raras.
“Nós poderíamos fechar contratos de fornecimento de longo prazo desses produtos para uma indústria que precisa desse material e está disposta a pagar”, disse.
O fator Trump
Para Azevêdo, qualquer acordo bem-sucedido com os americanos precisa levar em conta o perfil do negociador do outro lado. “Se você quer ter uma negociação com o presidente Donald Trump, ele tem que ver a vitória também. Você vai ter que ganhar o seu, mas ele vai ter que ver a dele também. Ele quer a manchete”, afirmou.
O ex-dirigente da OMC ressaltou que nada impede que ambos os lados saiam como vencedores de um eventual acordo. Ele alertou ainda que o cálculo diplomático e estratégico necessário está sendo contaminado pelo contexto eleitoral, e que o Brasil precisa escapar dessa armadilha para avançar nas negociações.

