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Aplicativo ajuda a decifrar rótulos de cosméticos e alimentos no Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Aplicativo ajuda a decifrar rótulos de cosméticos e alimentos no Brasil

Repletos de números, símbolos e nomes difíceis de entender, que mais parecem uma tabela periódica, os rótulos de produtos estão ali por obrigatoriedade de informação.

No Brasil, a rotulagem de alimentos e produtos é obrigatória e essas normas são estabelecidas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Mas, por falta de entendimento — ou tempo —, muitas vezes essas informações não são lidas pelos consumidores, justamentamente por serem de difícil compreensão.

Para ajudar no entendimento, existem aplicativos que traduzem as descrições dos produtos. Entre eles está o Yuka, que chegou em julho ao Brasil. Ele escaneia informações de produtos de higiene e de cosméticos, além de rótulos de alimentos.

Criado na França e já disponível em países da Europa e nos Estados Unidos, o app faz uma avaliação de 0 a 10 acompanhada de uma classificação por cores que varia do verde ao vermelho.

A cofundadora do Yuka diz que a ideia de unir tecnologia com as compras surgiu após um momento de conscientização do que havia em um cereal consumido diariamente todas as manhãs.

“Era uma marca associada à saúde e ao controle de peso, mas os cereais continham quase 25% de açúcar, além de diversos aditivos considerados problemáticos. Foi nesse momento que compreendi a enorme diferença entre o discurso de marketing e a composição real dos produtos”, afirma à CNN Brasil Julie Chapon.

Chapon destaca a importância da classificação brasileira NOVA, feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo, em 2009, que divide os alimentos em quatro grupos, de acordo com o grau de modificação ao fim dos processos industriais. A teoria é considerada uma referência em políticas de saúde alimentar.

“Nos últimos anos, o Brasil tornou-se um dos países de onde mais recebemos pedidos de consumidores solicitando a disponibilidade do aplicativo. Portanto, existe uma conscientização significativa sobre a qualidade dos alimentos, em um momento em que os produtos ultraprocessados já representam cerca de um quarto da alimentação dos brasileiros, segundo pesquisas da USP.”

Julie destaca que, geralmente, os consumidores se preocupam mais em saber do que são compostos os alimentos que comem do que em entender o que passam na pele todos os dias.

“Isso faz todo sentido, levando em conta que os rótulos dos cosméticos são ainda mais complexos, escritos com nomes que praticamente ninguém consegue decifrar. O marketing também pode ser enganoso: um produto que se apresenta como ‘natural’ ou ‘hipoalergênico’ pode revelar uma realidade bastante diferente quando se analisa sua formulação.”

Além do Yuka, outros sistemas disponíveis aos brasileiros que leem as letrinhas pequenas de comidas são RotulApp, Desrotulando e Posso Comer?, entre outros.

Cuidado com a simplificação

No entanto, especialistas alertam que, apesar da importância em saber mais sobre o que se passa na pele, nos cabelos e no que se ingere, os aplicativos podem correr o risco de “simplificar” a leitura do que realmente é saudável ou até de “demonizar” certos alimentos.

A dermatologista Ana Carolina Sumam diz que, em se tratando de skincare, há muitas informações, além das disponíveis nas embalagens, que devem ser levadas em conta.

“A pessoa pode acreditar que a classificação do aplicativo é suficiente para tomar uma decisão. É preciso considerar o tipo de pele, a presença de doenças dermatológicas, a tolerância da pele a determinados ativos, além das concentrações desses ingredientes e das associações presentes na fórmula”, explica.

Para ela, não basta saber se um princípio ativo está na composição; é necessário entender como ele foi formulado e qual é o objetivo do tratamento.

“Por isso, esses aplicativos devem ser encarados como um recurso complementar e nunca como a única fonte de informação. A orientação de um dermatologista continua sendo fundamental para indicar os produtos mais adequados para cada paciente, para evitar reações.”

A médica reflete que, quando um aplicativo fornece uma análise simplificada de uma fórmula, ele pode acabar transmitindo a ideia de que determinado ingrediente é sempre prejudicial, quando, na prática, isso depende de outros fatores.

É preciso avaliar qual é a substância em questão, em que concentração ela está presente, como foi formulada e, principalmente, quem vai utilizar aquele produto. Outro ponto dos produtos dermatológicos é a combinação dos ativos e como eles atuam em conjunto.

“Uma substância que não é a melhor escolha para um paciente pode ser extremamente benéfica para outro, dependendo do tipo de pele, das condições dermatológicas e do objetivo do tratamento”, fala Ana Carolina. “Por isso, a classificação de um aplicativo pode servir como uma informação complementar, mas não substitui a avaliação clínica e individualizada feita por um médico.”

A precaução quanto aos rótulos também é recomendada pelo endocrinologista Rafael Suhett. O médico afirma que a avaliação nutricional de um alimento envolve fatores como composição completa, perfil e quantidade de nutrientes, o tamanho da porção consumida e o objetivo de saúde.

“Muitos aplicativos utilizam critérios padronizados para classificar alimentos como ‘bons’ ou ‘ruins’, sem considerar o contexto individual, a frequência de consumo, a quantidade ingerida e o padrão alimentar da pessoa. Um alimento não deve ser avaliado de forma isolada. Em uma alimentação equilibrada, diversos produtos podem ter espaço sem representar prejuízo à saúde”, explica. “Os aplicativos podem ser ferramentas interessantes para auxiliar o consumidor e facilitar a comparação entre produtos, mas é importante fazer uma complementação com um profissional de saúde.”

Como é feita a classificação no Yuka?

Para os cosméticos e produtos de cuidados pessoais, Julie Chapon explica que o Yuka analisa cada ingrediente da formulação sobre potenciais efeitos, como alergias, irritações, desregulação endócrina, risco carcinogênico, impacto ambiental, entre outros. Com isso, ele é classificado em um de quatro níveis de risco, que variam de “nenhum risco identificado” até “alto risco”.

Ela afirma que Yuka tem uma equipe científica interna composta por três profissionais, incluindo um toxicologista e um engenheiro de alimentos brasileiro, além do apoio de consultores científicos externos.

No caso dos alimentos, a nota é baseada em três critérios, baseados em dados que avaliam o equilíbrio nutricional, presença de aditivos e certificação orgânica, para produtos que apresentem selo oficial de produção orgânica.

Nova rotulagem de alimentos é excelente para o consumidor