O tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil trouxe novos desafios para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL), segundo analistas ouvidos pelo WW. A visita de Flávio a Washington para tentar evitar as tarifas americanas não surtiu efeito, e o episódio passou a integrar uma sequência de crises que vêm marcando negativamente sua trajetória eleitoral.
Narrativa de proximidade com Trump é abalada
O professor da Universidade George Washington Maurício Moura avaliou que o tarifaço é prejudicial a todos, mas representa um momento particularmente difícil para a campanha de Flávio.
Segundo Moura, a estratégia recorrente de viajar a Washington em momentos de crise tinha o objetivo de demonstrar proximidade com Donald Trump e desviar a atenção de problemas internos. “Essa notícia prejudica essa narrativa de que essa aproximação, essa parceria, claramente não traz algum benefício concreto para o eleitor”, afirmou Moura.
Petismo superestima influência do bolsonarismo nas tarifas, diz analista
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna rebateu a tentativa do campo petista de atribuir o tarifaço à influência do bolsonarismo sobre o governo americano. Para Lourival, isso representa uma superestimação do peso político da família Bolsonaro em Washington.
Ele explicou que Trump defende tarifas há décadas e que a política comercial americana é aplicada de forma ampla a diversos países. “Não tem nada a ver com o Bolsonaro”, afirmou o analista, acrescentando que o Brasil é afetado sobretudo por ser um país altamente protecionista.
O analista citou o Reino Unido como exemplo de país que conseguiu estancar o processo logo no início, ao firmar um acordo com os Estados Unidos um mês após o início das investigações.
Governo Lula fatura politicamente com o episódio
O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, observou que o Palácio do Planalto e o Partido dos Trabalhadores já haviam utilizado o tarifaço de julho de 2025 para recuperar popularidade e desgastar a oposição.
Segundo Rittner, os marqueteiros do governo identificaram que o discurso de defesa da soberania nacional rendeu bons frutos eleitorais e passaram a repetir a estratégia.
“Foi no discurso de defesa da soberania que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reencontrou um bom momento de popularidade e fez sangrar a sua principal candidatura adversária”, disse Rittner.
Eleição de oposição sem oposição consolidada
Maurício Moura traçou um panorama do cenário eleitoral brasileiro, descrevendo-o como “uma eleição de oposição, mas sem oposição no momento”.
O analista apontou que, embora pesquisas mostrem que pelo menos metade do eleitorado reprova o governo ou considera que ele não merece continuar, a oposição ainda não apresentou uma candidatura capaz de capitalizar esse descontentamento.
Moura ressaltou que Flávio Bolsonaro (PL), mesmo sendo o candidato de oposição mais bem posicionado nas pesquisas, acumula alto índice de rejeição.
O professor destacou que os pontos perdidos por Flávio nas pesquisas não foram absorvidos por Lula, mas sim por eleitores que reprovam o governo e também rejeitam o pré-candidato oposicionista.
Esse grupo, segundo ele, será determinante para o resultado da eleição. Moura afirmou ainda acreditar que a disputa pode ser decidida já no primeiro turno, com Lula potencialmente flertando com a vitória em outubro, enquanto o campo antipetista ainda busca um nome capaz de aglutinar seus votos.
Sobre outros nomes da direita, como Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), Moura avaliou que, para surpreenderem, precisariam convencer o eleitorado de que são a melhor alternativa para derrotar o PT.
O analista ponderou que o histórico das eleições presidenciais brasileiras desde 1989 aponta que candidatos bem-sucedidos costumavam apresentar intenções de voto muito mais expressivas nesta altura do calendário eleitoral.

