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Açúcar orgânico brasileiro é afetado por nova tarifa nos EUA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Açúcar orgânico brasileiro é afetado por nova tarifa nos EUA

A decisão do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de incluir o açúcar orgânico brasileiro na lista de produtos sujeitos à nova tarifa foi recebida com surpresa pelo setor sucroenergético. A medida contraria, inclusive, o posicionamento apresentado durante as audiências públicas realizadas na semana passada, quando os próprios importadores norte-americanos defenderam a inclusão do produto na lista de exceções.

Embora represente menos de 1% da produção nacional de açúcar, o açúcar orgânico ocupa um espaço estratégico nas exportações brasileiras por se tratar de um produto de alto valor agregado. Em muitos casos, o preço pago pelo mercado norte-americano chega ao dobro do valor do açúcar convencional.

O Brasil produz cerca de 44 milhões de toneladas de açúcar por safra. Desse volume, menos de 1 milhão de toneladas corresponde ao açúcar orgânico, produzido atualmente por apenas quatro usinas no país.

A produção envolve custos significativamente mais elevados, uma vez que exige certificações internacionais, rastreabilidade completa da cadeia produtiva e cumprimento de rigorosos critérios ambientais e de sustentabilidade. Esses atributos fizeram dos Estados Unidos um dos principais mercados para o produto brasileiro, atendendo consumidores dispostos a pagar um prêmio por alimentos certificados.

Ao contrário do açúcar bruto, cuja competitividade está diretamente ligada ao preço, o açúcar orgânico disputa espaço com base na diferenciação e na qualidade. Por isso, a inclusão do produto na lista de tarifas chama atenção por não decorrer de qualquer investigação sobre práticas comerciais do setor sucroenergético ou de questionamentos relacionados ao produto em si.

Na avaliação de representantes do setor, a medida é consequência de uma disputa comercial mais ampla entre Brasil e Estados Unidos, na qual diferentes cadeias produtivas acabam sendo utilizadas como instrumento de pressão econômica e política.

O impacto tende a ser mais intenso justamente por se tratar de um mercado de nicho. Enquanto o açúcar convencional pode ser direcionado para diversos destinos internacionais, o açúcar orgânico depende de canais específicos de comercialização, contratos de longo prazo e certificações reconhecidas pelos compradores. Dessa forma, eventuais perdas de competitividade no mercado norte-americano dificilmente serão compensadas no curto prazo.

O episódio também evidencia uma contradição presente nas atuais disputas comerciais. Em um momento em que governos e empresas reforçam compromissos com a descarbonização e a sustentabilidade, produtos reconhecidos por seu menor impacto ambiental passam a enfrentar barreiras comerciais sem relação direta com critérios ambientais.

Para o setor sucroenergético, o episódio reforça a importância da diversificação de mercados. Assim como ocorreu com o etanol, cuja dependência das compras americanas diminuiu nos últimos anos com o avanço das exportações para a Ásia, o açúcar orgânico poderá buscar maior inserção em mercados como Europa e Ásia, onde cresce a demanda por alimentos sustentáveis e certificados.

Além dos impactos imediatos sobre as exportações, a decisão serve de alerta para todo o agronegócio brasileiro. Produtos de nicho, com elevado valor agregado e forte inserção internacional, tendem a ser mais sensíveis às mudanças no cenário geopolítico. Em um contexto em que tarifas comerciais passam a ser utilizadas como instrumento de política externa, competitividade, sustentabilidade e diplomacia comercial tornam-se fatores cada vez mais interligados.

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