Em meio ao aumento dos eventos climáticos extremos, o setor da construção civil tem intensificado a busca por soluções inovadoras. Materiais mais resistentes, técnicas construtivas sustentáveis e novas tecnologias vêm ganhando espaço nos canteiros de obras para tornar as edificações mais preparadas para um clima cada vez mais imprevisível.
Em entrevista, Nilson Sarti, representante da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), afirmou que o tema deve ser analisado por uma perspectiva mais ampla.
“Na realidade, você tem que olhar de uma lente um pouco mais ampla, de tornar nossas cidades mais resilientes”, disse.
Ele citou o programa da ONU Making Cities Resilient (MCR2030), do qual diversas cidades brasileiras já participam e que reúne dez diretrizes consideradas fundamentais para fortalecer a resiliência urbana.
Engenharia e tecnologia a serviço da resiliência urbana
Sarti destacou o papel da engenharia nesse processo e mencionou soluções como asfaltos modificados, concretos de alto desempenho, pavimentos refletivos e iniciativas baseadas na natureza, como a ampliação de áreas verdes e a reabertura de rios e lagos nas cidades.
O vice-presidente da entidade também ressaltou o uso da inteligência artificial para projetar cenários climáticos futuros, já que os modelos tradicionais de drenagem urbana, baseados no histórico de chuvas dos últimos 100 anos, deixaram de refletir a realidade.
“Recentemente, você teve em São Paulo chuva de 120 milímetros em dois dias praticamente, acabou e inundou tudo, e os piscinões estão preparados para 80 milímetros”, exemplificou.
Como exemplo dos impactos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura, Sarti citou as enchentes no Rio Grande do Sul. Segundo ele, empresas interromperam as atividades por estarem em áreas alagadas, data centers foram comprometidos e diversas pontes desabaram por não terem sido projetadas para suportar os novos níveis dos rios.
“A gente tem que olhar isso de uma forma muito mais séria do que os planejamentos anteriores”, alertou.
Desafios regulatórios e orçamentários
No campo regulatório, Sarti avaliou que a Lei 14.904, sancionada em julho de 2024 e que estabelece diretrizes para planos de adaptação às mudanças climáticas, representa um avanço, mas ainda há espaço para aperfeiçoamentos. Segundo ele, muitos processos licitatórios ainda não incorporam esses novos parâmetros.
“Você tem hoje várias concorrências que não utilizam esses novos modelos”, observou. Para o representante da Cbic, também é necessário avançar na implementação da nova legislação sobre licenciamento ambiental, criando um ambiente jurídico mais favorável à adoção dessas soluções.
Ao comentar a capacidade dos municípios de promover as adaptações necessárias, Sarti apontou a escassez de recursos como o principal obstáculo.
“Essa é uma parte muito delicada. Nós estamos com falta de recurso total para essa parte da adaptação das cidades”, afirmou.
Ele reconheceu iniciativas pontuais, como as realizadas em Salvador para reforçar encostas e fortalecer a defesa civil, mas ressaltou que os investimentos precisam ser permanentes e planejados com antecedência. Na avaliação de Sarti, o poder público deve liderar esse processo pelo exemplo.
“Os prédios públicos têm que dar o exemplo de usar energias renováveis, materiais mais resistentes, olhar mais para frente no conforto térmico, acústico. E isso nós estamos ainda longe de acontecer”, concluiu.

