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Batalha interna pelo Cartel de Sinaloa agrava crise de violência no México

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Batalha interna pelo Cartel de Sinaloa agrava crise de violência no México

Quase dois anos após a captura do chefe do tráfico mexicano Ismael “El Mayo” Zambada e da batalha interna que ela desencadeou dentro do Cartel de Sinaloa, os confrontos entre seus principais grupos continuam em andamento, gerando violência nesse estado do noroeste do México.

O tráfico de fentanil também segue ativo, apesar das maiores apreensões realizadas pelo governo, alerta um relatório da organização não governamental International Crisis Group publicado nesta terça-feira (7).

O relatório, baseado em entrevistas com autoridades, ativistas, acadêmicos e moradores de Sinaloa, foi divulgado apenas um dia depois de Zambada aceitar receber uma condenação à prisão perpétua, mas pedir para ser enviado a uma penitenciária onde possa ter garantidos cuidados adequados de saúde.

A sentença de Zambada, que em agosto de 2025 se declarou culpado por tráfico de drogas, está prevista para o dia 20 de julho.

Mayos x Chapitos

A captura de Zambada, cofundador do Cartel de Sinaloa junto com Joaquín “El Chapo” Guzmán, condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos, ocorreu no fim de julho de 2024, em território americano.

Zambada afirma que foi enganado por Joaquín Guzmán López, um dos filhos de El Chapo, e que ele o levou de avião aos Estados Unidos, onde ambos foram presos.

No cenário internacional, a prisão gerou tensões entre os governos do México e dos Estados Unidos. Até hoje, o México exige que as autoridades americanas esclareçam de forma detalhada as circunstâncias da captura.

Enquanto isso, no âmbito local, a prisão do chefe do tráfico desencadeou uma disputa entre as principais facções do Cartel de Sinaloa, Los Mayos e Los Chapitos, que resultou em centenas de homicídios dolosos e outros episódios de violência na tentativa de controlar uma das principais organizações criminosas do continente.

“A violenta ruptura no Cartel de Sinaloa se tornou uma das maiores crises de segurança enfrentadas pela presidente mexicana Claudia Sheinbaum”, afirma o relatório do International Crisis Group, que descreve como Los Mayos e Los Chapitos estão em confronto desde setembro de 2024 para conquistar espaço nas principais cidades de Sinaloa, Culiacán e Mazatlán, além de outras localidades.

O relatório afirma que as duas facções utilizam armas de fogo, veículos blindados e até drones, o que provocou altos níveis de violência e interrompeu a vida cotidiana em várias regiões de Sinaloa. O documento acrescenta que cada grupo recorre a atos violentos para intimidar o rival.

“A brutalidade é resultado de três fatores. Primeiro, ambas as facções buscam infligir o máximo de crueldade possível uma contra a outra como forma de vingança. Segundo, a necessidade de novos integrantes levou os grupos a recorrerem a jovens assassinos com pouca experiência, que podem ter menos resistência em relação à violência que cometem (…). Em terceiro lugar, as facções estão adotando táticas de outros grupos criminosos que, segundo elas, demonstram força ou ajudam a consolidar sua reputação”, detalha o relatório.

De acordo com o relatório, além de Los Mayos e Los Chapitos, o Cartel de Sinaloa atualmente possui outros dois grandes grupos: um liderado por Aureliano Guzmán, conhecido como “El Guano”, irmão de El Chapo, e outro formado pelo que restou da facção dos irmãos Beltrán Leyva, comandada por Fausto Isidro Meza Flores, conhecido como “El Chapo Isidro”.

“Esses quatro grupos operam em alianças em constante mudança com células menores, das quais o Crisis Group contabilizou pelo menos 20. Eles também colaboram com vários líderes individuais em todo o estado”, diz o relatório.

A violência continua; o tráfico de fentanil também

A disputa interna pelo Cartel de Sinaloa fez com que o estado vivesse um dos períodos mais violentos de sua história recente, afirma o relatório.

Desde que os confrontos entre as facções começaram, em setembro de 2024, até maio deste ano, dado mais recente disponível, Sinaloa registrou 2.829 homicídios dolosos, segundo números oficiais. Somente em 2025, foram 1.656 casos, o que representa o ano mais violento para Sinaloa em pelo menos uma década.

O relatório aponta que o envio de forças militares realizado pelo governo de Sheinbaum conseguiu conter os confrontos públicos e os bloqueios em Culiacán e outros centros urbanos, mas não interrompeu a violência; em vez disso, ela se deslocou para áreas rurais.

Além disso, o documento alerta que, embora as autoridades tenham aumentado as prisões e as apreensões de drogas em Sinaloa, não há evidências de que a produção e o fluxo de fentanil para os Estados Unidos tenham sido interrompidos. Diversas autoridades e especialistas afirmam que muitos grupos de narcotraficantes estão priorizando essa droga em relação a outras, devido ao fato de ser mais fácil de produzir e de sua comercialização ser mais lucrativa.

O International Crisis Group afirma que consumidores de fentanil nas cidades fronteiriças de Tijuana, no México, e San Diego, nos Estados Unidos, não relataram mudanças na disponibilidade ou no preço da substância, que pode ser encontrada em pequenas quantidades por um valor equivalente a cerca de US$ 3.

“A violência se intensificou nas áreas rurais, enquanto os assassinatos e os desaparecimentos, inclusive de pessoas sem ligação com as facções em conflito, continuam ocorrendo em um ritmo alarmante. Em essência, as autoridades federais ainda estão longe de expulsar os grupos criminosos de Sinaloa das áreas que controlam ou de cortar suas fontes de renda”, afirma o relatório.

Um confronto em meio às pressões dos EUA

A batalha entre as facções do Cartel de Sinaloa ocorre em um contexto de constantes pressões dos Estados Unidos sobre o México em temas relacionados à segurança e ao combate ao crime organizado.

Em fevereiro de 2025, um mês após Donald Trump iniciar seu segundo mandato presidencial, os Estados Unidos designaram o Cartel de Sinaloa como uma organização terrorista estrangeira, assim como outros cartéis mexicanos, incluindo Jalisco Nova Geração, do Golfo, do Nordeste, Unidos e La Nueva Familia Michoacana.

Os Estados Unidos também consideram o combate ao tráfico de fentanil uma de suas prioridades.

No fim de abril deste ano, as pressões chegaram a outro patamar quando o Departamento de Justiça dos EUA acusou o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, e outros nove funcionários e ex-funcionários do estado por crimes relacionados ao narcotráfico, acusações que eles negam.

Sheinbaum afirma que os Estados Unidos não apresentaram provas suficientes que justifiquem a prisão provisória dessas pessoas para uma eventual extradição. Ela garante que a Procuradoria-Geral da República do México investiga as acusações e tomará as medidas cabíveis caso encontre evidências que as sustentem.

O International Crisis Group destaca que Sheinbaum mantém essa posição sob o argumento de defender a soberania nacional, mas recomenda que seu governo não trate as acusações contra políticos mexicanos com descaso.

A organização sugere a produção de informações de inteligência, a realização de investigações e o encaminhamento à Justiça dos casos em que forem encontrados elementos suficientes.

“Processar judicialmente os crimes violentos e os delitos graves relacionados ao narcotráfico, assim como iniciar investigações judiciais destinadas a desmantelar as redes de corrupção que perpetuaram a criminalidade em Sinaloa, são medidas cruciais tanto para o bem-estar do estado quanto para a segurança do México como um todo”, afirma o relatório.

“Enquanto as raízes do domínio exercido pelo crime organizado não forem enfrentadas, Sinaloa e outras regiões do México continuarão vivendo com medo. O México não deve permitir que a ameaça de uma intervenção americana equivocada ofusque a necessidade de realizar mudanças profundas por conta própria.”

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