O presidente americano, Donald Trump, afirmou, nesta sexta-feira (10), que deixou instruções para que os Estados Unidos respondam com força militar avassaladora caso o Irã consiga assassiná-lo. A declaração foi feita em entrevista ao New York Post e ocorre após Israel ter compartilhado informações com o governo americano sobre um suposto novo plano iraniano para matar Trump.
Esta não é a primeira vez que Trump faz uma declaração desse tipo. Em fevereiro do ano passado, durante uma visita do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a Washington, o líder americano já havia afirmado ter deixado instruções semelhantes. Apesar da gravidade da ameaça, Trump minimizou a situação, declarando estar “na lista deles há muito tempo”.
Análise do conflito: sem pontos em comum para negociação
O professor de Relações Internacionais do Ibmec, Alexandre Pires, avaliou que a situação entre os dois países é extremamente difícil de ser resolvida por meio de negociação.
Segundo ele, os iranianos desejam manter o domínio do estreito, continuar sua pesquisa nuclear sem limites claros para uso civil e ampliar o alcance de seu armamento balístico — chegando a atingir a Europa a 4 mil quilômetros de distância.
Do outro lado, os Estados Unidos querem desmantelar todo esse programa. “Você não tem um ponto de acordo”, afirmou Alexandre Pires, destacando que essa falta de meio-termo dificulta qualquer entendimento duradouro e alimenta a retomada das hostilidades.
Alexandre ressaltou que a pausa observada durante a trégua serviu para que todos os atores do conflito se rearmassem. Ele apontou que os Estados Unidos retomaram sua capacidade de ataque, com estimativas indicando que mais de 90 alvos foram atingidos ao longo da costa iraniana.
O Irã, por sua vez, respondeu, mas sem a mesma força e potência demonstradas no início do conflito, o que pode indicar dificuldades de reabastecimento. “Isso é um sinal, talvez um teste que os Estados Unidos estejam fazendo para pressionar o Irã”, afirmou o analista.
Possível operação terrestre e mobilização da Marinha americana
O professor alertou ainda para a possibilidade de, a longo prazo, os EUA executarem algum tipo de operação terrestre na região. Ele destacou que navios anfíbios — utilizados para invasões terrestres — chegaram em maior quantidade à área, representando uma mobilização diferente da Marinha americana.
“Isso serve como pressão ao Irã”, avaliou Alexandre. O analista também mencionou um complicador adicional: um ataque aéreo teria ocorrido após o comando central declarar o cessar das operações, levantando suspeitas de que algum ator da Península Arábica — possivelmente os Emirados Árabes Unidos — teria participado da ação, com ou sem coordenação.
Política doméstica e eleições de meio de mandato
Questionado sobre a influência da política interna americana nas decisões de Trump, Alexandre Pires avaliou que boa parte do que foi observado durante o período de trégua foi motivado pela política doméstica.
Havia, segundo ele, uma esperança do governo americano de reverter pesquisas de opinião desfavoráveis. No entanto, o analista acredita que os recentes ataques indicam que esse ponto de não retorno foi cruzado, tornando as eleições de meio de mandato secundárias no momento.
Sobre o Irã, Alexandre Pires afirmou que as negociações truncadas indicavam que Teerã apostava em uma possível perda de maioria parlamentar de Trump no Congresso americano — estratégia que, diante dos eventos recentes, se mostrou infrutífera.
Alexandre também analisou a relação entre Trump e Netanyahu, que atravessava um momento de tensão. O professor acredita que uma reaproximação é possível, e que o distanciamento recente pode ter sido motivado pela agenda de compras militares de Israel.
“Israel está num momento de aquisição de armamentos”, disse, acrescentando que, com o encaminhamento do fornecimento de armas, a postura israelense tende a mudar. Para o analista, Israel é muito pragmático: “cada coisa a sua vez, e agora era o momento de garantir a reposição dos estoques de armamento”.

