Adolfo Sachsida afirmou, em entrevista ao Bastidores CNN, que o principal desafio do próximo governo será enfrentar o desequilíbrio fiscal do país. Segundo ele, a relação dívida/PIB representa o verdadeiro indicador da solvência de uma nação e não pode ser ignorada, mesmo quando as regras de gasto vigentes estão sendo cumpridas.
O Projeto Brasil e as 200 medidas legislativas
Sachsida revelou que, a partir do dia 3 de novembro, quando está previsto o início da transição de governo, ele e cerca de 100 colaboradores voluntários pretendem entregar ao próximo presidente eleito o chamado Projeto Brasil.
Trata-se de um conjunto de aproximadamente 200 medidas legislativas — entre PECs, medidas provisórias, projetos de lei ordinários e projetos de lei complementares — voltadas à consolidação do lado fiscal da economia, ao aumento da produtividade, à geração de emprego e renda, e à inclusão social produtiva.
“O que é isso? É entregar para o próximo presidente eleito um conjunto de 200 medidas legislativas”, explicou Sachsida.
O economista frisou que o projeto não está vinculado a nenhum candidato específico e será entregue a quem quer que seja eleito.
Ele destacou que o trabalho é desenvolvido por cerca de 100 pessoas organizadas em 25 grupos temáticos, que abrangem áreas como energia elétrica, petróleo e gás, inteligência artificial e inclusão social. “Não sou só eu fazendo, são quase 100 pessoas trabalhando em 25 grupos”, afirmou.
Ajuste fiscal via redução de gastos, não de impostos
Para Sachsida, o ajuste necessário para estabilizar a relação dívida/PIB deve ser feito exclusivamente por meio da redução do gasto público, e não pelo aumento da carga tributária.
Ele argumentou que o Brasil já possui uma carga tributária equivalente a aproximadamente 33% do PIB, o que significa que o cidadão trabalha de graça para o governo um dia a cada três. “Não dá mais para a gente ficar aumentando tributo. O brasileiro não aguenta mais”, declarou.
Sachsida também se posicionou contrário a novas reformas da previdência, argumentando que os aposentados já foram sobrecarregados por mudanças anteriores, especialmente a realizada em 2019.
Ele defendeu a criação de uma regra baseada na relação dívida/PIB, com gatilhos automáticos — incluindo um teto de gastos aprimorado em relação ao modelo anterior — que seriam acionados caso a dívida ultrapassasse determinados limites.
Meta de inflação e reforma tributária
Questionado sobre a meta de inflação, Sachsida manifestou apoio à manutenção da meta atual de 3% ao ano, rejeitando propostas de elevação desse patamar. Segundo ele, aumentar a meta de inflação resultaria, na prática, em juros mais altos, e não mais baixos, como defendem alguns economistas.
“Assim que você aumentar a meta de inflação, os juros vão aumentar”, afirmou categoricamente.
Sobre a reforma tributária, Sachsida disse que avançaria apenas até a unificação do PIS e da COFINS na CBS, paralisando a implementação do IBS — junção do ICMS e do ISS —, por considerar que essa parte da reforma viola princípios federativos ao concentrar poder excessivo em Brasília.
Ele também apontou que o governo não depositou nos fundos criados para viabilizar a transição tributária os valores que havia comprometido, inviabilizando a continuidade do processo.
Sinal para o mercado e preparação tecnológica
Sachsida comparou a estratégia do Projeto Brasil à adotada por outros governos que, já no primeiro dia de mandato, lançaram um pacote amplo de medidas para sinalizar ao mercado financeiro e à sociedade o compromisso com a responsabilidade fiscal e com reformas pró-mercado.
Ele afirmou que o Brasil é um destino potencial para bilhões de dólares em investimentos, bastando para isso dar sinais claros de consolidação fiscal.
Por fim, o economista alertou para os desafios estruturais do país diante da revolução tecnológica em curso, citando déficits educacionais graves como obstáculos à inclusão produtiva. Ele defendeu a pacificação política do Brasil como condição necessária para enfrentar esses desafios.
“Nós temos que corrigir rapidamente o lado fiscal (…) e nos prepararmos para essa revolução da inteligência artificial“, concluiu.

