Por muitas vezes, o terror psicológico costuma ser terreno fértil na hora de explorar “fantasmas”, sejam literais ou não. Em “A Herança de Narcisa”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (9), essa premissa ganha contornos viscerais na pele de Paolla Oliveira, 44.
Em sua estreia no gênero, a atriz encara o duplo desafio de mergulhar em uma atmosfera de mistério, angústia familiar e segredos até então enterrados.
A trama acompanha Ana, que retorna ao lar de infância, no Rio de Janeiro, após a morte da mãe, a ex-vedete Narcisa. Ao lado do irmão, Diego (Pedro Henrique Müller), ela inicia uma jornada de limpeza no imóvel que se transforma em um verdadeiro acerto de contas com traumas do passado e uma relação tóxica – e mal resolvida.
Mais que um novo trabalho, a imersão na obra foi um exercício de autorreflexão para Paolla. À CNN Brasil, a atriz conta como o filme a atravessou diante das heranças passadas de geração em geração, especialmente para mulheres.
“Eu acho que todo trabalho acaba passando por nós, atravessando a atriz ou quem quer que seja. Às vezes com distância, às vezes com proximidade, mas isso é um fato. Também acredito que, principalmente as mulheres vão entender, as filhas, as mães… que os laços familiares não são só simples”, comenta.
“Eles vêm de amor, mas, às vezes, além do amor, a gente herda as frustrações, o que não se conseguiu dizer, e acho que depende muito de nós, em algum momento, dizer. Entender o que somos e o que devemos deixar para trás”, acrescenta.
Para além da tensão clássica que se espera de um filme deste estilo, o longa propõe um diálogo íntimo com quem está diante das telonas.
“Não tem como não se questionar. É um bom exercício. Quem gosta do terror vai gostar. Provavelmente as pessoas vão falar: o que eu tenho que deixar para trás? Será que eu tenho alguma coisa? O que é meu? Qual é a minha voz de verdade? Essas perguntas foram feitas no meio do caminho”, confessa.

O desafio por trás da dualidade entre Ana e Narcisa
Interpretar duas personagens também exigiu uma abordagem técnica específica, focada na sutileza. Segundo a protagonista, a construção foi um processo orgânico, coletivo e profundamente físico.
“É gostoso começar uma personagem e não saber exatamente como ela vai nascer, por quais caminhos você vai seguir. O mais legal é que cada pessoa que está no trabalho, da direção às expectativas dos produtores, do roteiro, o que vai se estabelecendo no dia a dia, na preparação… É com isso que a gente faz a personagem nascer”, contou em coletiva de imprensa.
Sobre o tom da atuação, Paolla adicionou: “É mais branda, mais tranquila, mais comedida, eu acho que o filme pedia isso. O terror tem um drama. Pedia que fosse algo mais suave. Eu faço duas personagens. Todos esses pontos foram me ajudando. O próprio terror me ajudou. Como eu coloco essa mulher tão intensa dentro dessa casa a ponto de fazer o público se interessar por ela? E se assustar?”.
“Foi delicioso descobrir cada partezinha delas. Fui fazendo minhas cenas sem dublês. Isso dá uma sensação no corpo. E eu sou muito físico. Cada parte que a gente foi construindo, o corpo sente. E isso foi trazendo um pouquinho delas para mim”, garante.

A dualidade também trouxe desafios particulares, especialmente na transição entre o presente e o passado. Ela destaca, porém, o valor da parceria em cena. “A Ana tinha um tom um pouquinho diferente de Narcisa. Então fazer as partes de Narcisa, em que ela está nas festas dela, revivendo o passado, em que o tom é um pouquinho mais alto, foi desafiador”.
“E no final, fazer a cena com a Rosinha [Rosamaria Murtinho] foi muito especial. Foi um dia em que a gente estava numa locação um pouco complicada, Santa Teresa, tinha música em volta, e era uma cena absolutamente emocionante, e olhar para ela, estar com uma mulher forte, firme, na minha frente, tão impecável, foi especial ter ela ali”, conclui.
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