Rondônia se tornou um dos casos mais emblemáticos da pesquisa “Diagnóstico sobre a Investigação de Homicídios no Brasil”, divulgada pelo Instituto Sou da Paz: apesar de registrar taxa de homicídios quase três vezes superior à do Distrito Federal, o estado esclarece cerca de 70% dos casos — bem acima da média nacional, de 40%.
Na média de 2020 a 2023, o percentual de elucidação rondoniense foi de 67%, com pico de 92% em 2023, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (8).
Para os pesquisadores, o desempenho demonstra que estratégias organizacionais e capacidades institucionais podem compensar parcialmente os efeitos da alta letalidade — mesmo em um contexto de restrição de efetivo, ampla extensão territorial e forte presença de organizações criminosas.
O principal diferencial identificado pelo estudo é o modelo de continuidade investigativa: a mesma equipe que atende a ocorrência no local do crime — policiais, escrivão e delegado — permanece à frente do caso até a conclusão do inquérito. O arranjo reduz perdas de informação, preserva a memória do local e acelera a investigação.
O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) do estado atua ainda em regime de sobreaviso contínuo, deslocando equipe sempre que há registro de homicídio ou morte suspeita — o que permite identificar até casos de suicídio simulado que exigiriam apuração mais profunda, segundo o relatório do Sou da Paz.
A baixa rotatividade dos servidores também aparece como ativo relevante: a permanência prolongada de policiais na unidade favorece o conhecimento do território, das dinâmicas criminais locais e dos autores recorrentes.
Para o Instituto Sou da Paz, os resultados de Rondônia decorrem menos da disponibilidade de recursos e mais da capacidade institucional de organizar o trabalho investigativo de forma contínua, especializada e adaptada às condições locais — uma experiência de “gestão da escassez” que pode inspirar outros estados.

