O governo brasileiro decidiu pela expulsão do espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, preso desde o fim de 2022. A decisão foi divulgada via DOU (Diário Oficial da União) na segunda-feira (6) e determina a saída de Sergey do país, além de proibir o russo de entrar no Brasil por um período de 30 anos a partir da expulsão.
Sergey foi capturado em 2022 com o uso de documento falso, com o nome brasileiro de Victor Muller. Desde então, o russo permanece sob custódia na Penitenciária Federal de Brasília, instituição de segurança máxima, cumprindo uma pena de 15 anos.
O parecer foi assinado por Alessandra Teixeira de Araújo, coordenadora de processos migratórios, e foi baseado no art. 54 da Lei 13.445, conhecida como Lei de Imigração.
A publicação do DOU afirma que a expulsão deve ocorrer após o cumprimento do período de encarceramento no Brasil ou se a Justiça autorizar a liberação antes do final do prazo.
A decisão vem após análises feitas pelo Ministério da Justiça a partir de um documento enviado no final do último ano pelo juiz Frederico Botelho de Barros Viana, da 15ª Vara Federal. No parecer do magistrado, era informado não haver mais processos contra o russo no Distrito Federal, o que antes mantinha Sergey no país.
Além disso, a pasta da Justiça também solicitou atualizações do caso à PF (Polícia Federal), à Justiça Federal de São Paulo, para a 4ª Vara do Rio de Janeiro, ao MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) e ao TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região).
O destino de Sergey era alvo de disputa entre Estados Unidos e Rússia. Enquanto Moscou solicita a extradição por uma acusação de tráfico internacional, porém, após análise dos documentos enviados, a PF concluiu que o pedido seria uma estratégia para “buscar” o espião de volta.
Já do lado do governo americano, informações da CIA, a agência de inteligência americana, foram enviadas ao Brasil sobre a atuação do espião em solo estadunidense. Segundo as informações, o homem teria entrado nos EUA com nome falso e teria espionado o país durante um período em que estudava em uma universidade.
Fábrica de espiões
A PF descobriu uma complexa e extensa “fábrica de espiões russos” no Brasil, com um esquema que foi ampliado e espalhado pela América Latina, tendo o Brasil como base de apoio por pelo menos 12 anos.
Dez pessoas investigadas foram descobertas em 2022, e ainda há uma delas sendo investigada, em 2025, por uso de documentos falsos. Os espiões são suspeitos de usar o Brasil como território neutro e repassar informações de interesse à Rússia.
Segundo as investigações na Diretoria de Inteligência da PF, a rede utilizava disfarces inusitados. Um dos espiões atuava como dono de uma joalheira em Brasília; outro era um estudante e apaixonado pelo forró em São Paulo; enquanto uma outra atuava como modelo.
Investigadores explicaram à CNN Brasil que eles criaram vidas e personagens críveis para ter histórico forte e serem aceitos em outros países como se fossem brasileiros.
Nove deles, incluindo dois desses citados acima, já saíram do Brasil, após serem descobertos, menos o Sergey Vladimirovich Cherkasov.
O caso dele começou em São Paulo no início de 2022. Ele morava na capital paulista desde 2010 e se apresentava como Victor Muller, com diversos documentos falsos, até ser preso tentando desembarcar em Amsterdã, na Holanda, e ser devolvido ao Brasil, em 2022.
O governo holandês devolveu Sergey após ele ter apresentado passaporte brasileiro falso para trabalhar no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Voltando ao Brasil, foi preso por uso de documento falso. Com ele, a PF encontrou outros registros falsos e logo depois abriu outro inquérito por lavagem de dinheiro e espionagem.
A PF aponta, na investigação, que a intenção dele era conseguir acesso a informações sobre a Rússia no tribunal penal. O país comandado por Vladimir Putin não faz parte do órgão, e o presidente tem um mandado de prisão em aberto por crime de guerra de deportação ilegal de crianças de áreas ocupadas da Ucrânia para a Rússia.
O espião passou nove meses em uma cela da Polícia Federal de São Paulo até ser transferido para a Penitenciária Federal em Brasília. A investigação levantou documentos, imagens e áudios que apontaram a ligação dele com a rede.
Em algumas mensagens, ele avisava a superiores na Rússia que trabalharia no Tribunal Penal Internacional e também do recebimento da quantia de R$ 35 mil. O material foi levantado com base em quebras de sigilo bancários e documentos encontrados no celular do russo. O inquérito diz que ele recebia dinheiro de funcionários do governo russo no Brasil para se manter, afinal, não tinha trabalho.
A partir de Sergey e sua ligação com outros contatos, a investigação foi ampliada. A PF também mapeou que outros espiões no Brasil tinham apoio do consulado russo no Rio de Janeiro e da Embaixada da Rússia em Brasília. Um dos investigados era adido comercial no consulado e foi embora antes de prestar depoimento à PF.
Após três anos, a investigação sobre essa rede continua na sede da PF em Brasília, e há um detalhe revelado pela CNN Brasil em outubro.
A PF tem informações de que os espiões usaram não só o Brasil, mas também outros países da América Latina como base, como Argentina e Venezuela. Todos com as mesmas características, mas muitos deles não são encontrados por conta do uso de documentos falsos.
Um casal russo, com filhos argentinos, foi descoberto em 2023 com o disfarce que lhes permitiu entrar na Eslovênia, país da União Europeia e membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ao voltar para a Rússia, foram recebidos com buquê de flores no aeroporto por Vladimir Putin.
Com informações de Elijonas Maia
*Sob supervisão de Lucas Schroeder

