Os Estados Unidos completam neste sábado (4) 250 anos de independência do governo britânico, uma data que convida à reflexão sobre o impacto duradouro desse movimento na história política mundial. Em entrevista ao Agora CNN, o professor João Carlos Souto, autor do livro “Suprema Corte dos Estados Unidos: Principais Decisões”, analisou o contexto histórico da emancipação americana e sua influência sobre outras nações.
Segundo Souto, o final do século XVIII foi marcado por uma intensa efervescência cultural e política nas 13 colônias britânicas na América. “Os historiadores costumam dizer que os Estados Unidos passavam por uma efervescência cultural e de discussão sobre os rumos do Estado, sobre liberdade, poucas vezes repetida na história mundial”, afirmou.
Das taxas ao documento histórico
O movimento de independência teve origem na insatisfação das colônias com a elevação de taxas imposta pelo parlamento inglês. As tensões entre as 13 colônias e o governo centralizado em Londres já se acumulavam desde antes de 1776, intensificando-se especialmente a partir de maio e junho daquele ano.
“Esse sentimento de revolta, esse sentimento de injustiça, já vinha sendo discutido e percebido de longa data”, explicou Souto. Em 4 de julho de 1776, tornou-se público o documento da Declaração de Independência, elaborado por Thomas Jefferson e assinado na Filadélfia.
A influência desse movimento ultrapassou as fronteiras americanas. Souto destacou que os inconfidentes mineiros, por exemplo, “beberam na fonte da declaração da independência e desse momento que passava os Estados Unidos”, evidenciando o alcance global das ideias ali expressas.
Constituição e instituições sólidas
A Declaração de Independência influenciou diretamente a Constituição Federal americana, elaborada também na Filadélfia e concluída em setembro de 1787, onze anos depois. Para Souto, foi nesse documento que conceitos como a separação de poderes — teoria de Montesquieu que nunca havia sido colocada em prática —, a forma federativa de Estado e o presidencialismo ganharam forma concreta pela primeira vez na história. “Tudo isso nasce com a Constituição e vai se desenvolvendo e criando raízes”, disse.
O especialista comparou a trajetória americana com a da França, ressaltando que, apesar da inegável importância da Revolução Francesa, o país europeu experimentou governos autocráticos após o movimento, algo que não ocorreu nos Estados Unidos. “O que aconteceu nos Estados Unidos é um experimento que deu certo e que se expande, que se solidifica e que se concretiza, que nós testemunhamos até hoje”, afirmou Souto.
Ecos de 1776 na política atual
Souto também abordou os desafios contemporâneos às instituições americanas. Ao mencionar Donald Trump, o especialista reconheceu um comportamento “um tanto quanto autocrático”, mas destacou que a Suprema Corte tem resistido a certas iniciativas. Como exemplo recente, citou a tentativa de extinguir o direito constitucional à cidadania para quem nasce em solo americano. “São ainda ecos de 1776, da Declaração de Independência, são ecos da Constituição de 1787 e que se desenvolveu ao longo e que vem se desenvolvendo e se robustecendo ao longo de todos esses anos”, concluiu.

