O tráfico internacional de pessoas envolvendo brasileiros mudou de perfil em 2025. Depois de anos em que o principal objetivo das organizações criminosas era explorar vítimas em condições análogas à escravidão, a exploração sexual passou a liderar os casos investigados pela PF (Polícia Federal).
Ao mesmo tempo, o Camboja consolidou-se como o principal destino de brasileiros traficados, muitos deles atraídos por falsas promessas de emprego e posteriormente obrigados a atuar em plataformas de golpes e fraudes digitais.
Os dados constam do Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, divulgado nesta sexta-feira (3), pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Segundo o documento, a mudança representa uma inversão em relação a 2024, quando o trabalho escravo concentrava a maior parte dos inquéritos instaurados pelas autoridades policiais.
Em 2025, os casos de exploração sexual identificados por meio do POP/TIP (Protocolo Operativo Padrão de Atendimento às Vítimas Brasileiras de Tráfico Internacional de Pessoas) cresceram 325%, passando de oito para 34 registros, reforçando a expansão dessa modalidade no tráfico internacional.
Apesar da mudança no perfil dos inquéritos da PF, o relatório ressalta que o trabalho escravo continua predominando em outras frentes de atendimento, como nos registros da DPU (Defensoria Pública da União) e da rede de Núcleos de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Postos Avançados de Atendimento Humanizado ao Migrante.
Outro dado que chamou a atenção das autoridades foi a consolidação do Camboja como principal destino de brasileiros traficados. O país asiático concentrou 44 das 84 vítimas brasileiras identificadas em casos de tráfico internacional em 2025, o equivalente a 52,4% do total.
“Brasileiros estão sendo exportados por meio de aliciamento para o Camboja e outros países para dar golpes em brasileiros aqui no Brasil. Então é uma sofisticação de fenômeno com uso de inteligência artificial, com uso de criptomoedas, com uso de esquema de pagamentos que antes a gente não verificava. É uma novidade que o Estado precisa se preparar para dar conta da complexidade para combater esse crime”, explicou o diretor do Departamento de Migrações do Ministério da Justiça, Victor Semple.
Em seguida aparecem Israel (11 casos), Itália (6), Bélgica (6) e Albânia (5). O número total de vítimas brasileiras notificadas pelo POP/TIP aumentou 33,3% em relação ao ano anterior, passando de 63 para 84 casos.
De acordo com o relatório, boa parte dos casos envolvendo o Camboja está relacionada ao aliciamento de brasileiros para supostas oportunidades de trabalho em plataformas digitais.
Ao chegarem ao país, as vítimas têm documentos retidos, sofrem ameaças e passam a ser forçadas a operar esquemas de apostas ilegais, fraudes financeiras e golpes virtuais, caracterizando uma nova dinâmica do tráfico internacional de pessoas. Os mecanismos de controle mais comuns incluem fraude, engano e ameaças, geralmente após recrutamento realizado por meio de redes sociais.
O avanço desse fluxo também levou o governo brasileiro a reforçar a estrutura de atendimento consular na região. O relatório destaca que a Embaixada do Brasil no Camboja passou a funcionar efetivamente a partir de agosto de 2025, ampliando a capacidade de assistência às vítimas brasileiras traficadas naquele país.
Além da mudança nas finalidades da exploração, o documento aponta uma alteração no perfil das vítimas brasileiras do tráfico internacional.
Em 2025, as mulheres negras passaram a representar 53,6% dos casos identificados pelo POP/TIP, revertendo a predominância masculina registrada em 2024.
Campanhas
Paralelamente à divulgação do relatório, o governo federal, por meio dos ministérios do Esporte, Mulheres e da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), lançou nesta sexta-feira campanhas e uma cartilha para combater o tráfico de pessoas. Também faz parte da iniciativa a agência da ONU (Organização das Nações Unidas) para migração, a OIM.
Nos aeroportos, agentes públicos foram treinados para identificar possíveis vítimas do tráfico de pessoas. Ao notar qualquer suspeita, a PF é acionada. Por conta de eventos que o Brasil vai sediar até o ano que vem, com a Copa do Mundo de Futebol Feminina, cartilhas serão distribuídas sobre o tema.

