Sandra Lith foi até a frente da loja Ms. Ann’s Boutique, em Inglewood, e abordou um visitante da Copa do Mundo que passeava pela região. Ela perguntou se ele se sentia seguro, se havia encontrado pessoas simpáticas e se tinha gostado da pequena cidade localizada na região de Los Angeles.
Depois de ouvir três respostas positivas, fez um pedido. “Quando você voltar para o Canadá, diga que Inglewood é um lugar agradável, que as pessoas são acolhedoras e que todos deveriam vir conhecer a cidade algum dia”, afirmou.
A expectativa das autoridades e de parte dos moradores é que a visibilidade mundial proporcionada pela Copa do Mundo, com oito partidas disputadas no SoFi Stadium, ajude a transformar a imagem de Inglewood em um destino de lazer e entretenimento, deixando para trás a fama ligada à pobreza e à violência.
Com os Jogos Olímpicos de 2028 a apenas dois anos de distância e diversas competições programadas para a cidade, moradores e líderes locais enxergam uma oportunidade ideal para combater estereótipos negativos que marcaram a história recente da região.
Inglewood aposta na Copa para mudar imagem
A tarefa, porém, não é simples. A reputação internacional de Inglewood foi fortemente impactada pelos distúrbios de Los Angeles em 1992, cujo epicentro ficava a poucos quarteirões da cidade, além de referências recorrentes em músicas do gangsta rap dos anos 1990.
Numa canção lançada em 1996 por Tupac Shakur e Dr. Dre, por exemplo, o verso dizia: “Yeah, Inglewood, Inglewood, always up to no good”. No ano seguinte, Mack 10 descreveu a cidade como um lugar com “mais assassinatos do que um filme de terror”, na música Inglewood Swangin’.
Durante a recessão que atingiu o sul da Califórnia nos anos 1990, especialmente as comunidades negras, pobreza e criminalidade cresceram de forma acentuada. Em 1993, a taxa oficial de pobreza ultrapassava 21%, enquanto mais de 2.500 crimes violentos eram registrados anualmente.
Hoje, a pobreza ainda atinge cerca de 15% da população, mas a violência caiu drasticamente. Foram registrados 55 homicídios em 1990, contra menos de 10 em 2024 e 2025. Já os crimes violentos caíram para menos de 700 por ano em uma cidade de aproximadamente 105 mil habitantes.
Investimentos impulsionam transformação da cidade
Autoridades municipais e investidores bilionários, como Stan Kroenke, proprietário do Arsenal e do Los Angeles Rams, e Steve Ballmer, responsável pelo Intuit Dome, afirmam que os novos estádios mudaram a economia local, gerando empregos, fortalecendo empresas e renovando o otimismo da população.
Em Los Angeles, muitos reconhecem que Inglewood mudou bastante. Agora, o desafio é convencer visitantes de outras regiões dos Estados Unidos e do exterior de que a cidade se tornou um destino para diversão, e não um lugar associado ao medo.
“Esta é uma nova era para a cidade de Inglewood, uma nova era. Acontece que somos a cidade número um do país”, afirmou o prefeito James T. Butts Jr. durante a inauguração da loja do rapper Snoop Dogg, localizada em frente ao SoFi Stadium.
Snoop Dogg também se tornou um dos principais embaixadores da cidade. Ao longo da carreira, investiu em diversos negócios na região, incluindo uma loja de roupas com sua marca nas proximidades do estádio que recebe jogos da Copa do Mundo.

Snoop Dogg promove Inglewood ao mundo
“Vamos unir o mundo do jeito da Costa Oeste: com união, respeito e muito amor pelo futebol”, declarou Snoop Dogg ao assumir o cargo de presidente comunitário de Los Angeles para a Copa do Mundo. O artista também participa da promoção dos Jogos Olímpicos de 2028.
O prefeito afirma que a chegada de cerca de 5 milhões de pessoas por ano fortalece a economia local. Segundo ele, duas equipes da NFL, uma franquia da NBA, além de shows e eventos realizados nos estádios de Inglewood, garantem fluxo constante de empregos, arrecadação e investimentos.
“A cidade de Inglewood representa um enorme impulso para a economia do sul de Los Angeles”, afirmou Butts em 6 de maio, quando a região se preparava para receber a atenção mundial durante a Copa do Mundo.
O SoFi Stadium fica a cerca de cinco quilômetros de uma importante instalação da SpaceX, que emprega milhares de pessoas. Um policial que trabalha na arena afirmou que a arrecadação gerada pelos eventos esportivos e de entretenimento mantém as finanças municipais equilibradas e melhora até os salários dos agentes.
Moradores ainda reclamam de trânsito e moradia
O policial reconheceu que alguns bairros ainda enfrentam índices elevados de criminalidade, mas ressaltou que áreas antes consideradas perigosas hoje são bairros tranquilos. “Você consegue sentir isso nas ruas. Está muito melhor”, disse. Para celebrar a Copa, os agentes utilizam distintivos especiais.
Nem todos, porém, comemoram os efeitos da transformação. Moradores reclamam dos congestionamentos frequentes e da falta de vagas para estacionar em dias de jogos. Ativistas também criticam o aumento dos preços dos imóveis e dos aluguéis, que dificulta a permanência de antigos residentes.
Sandra Lith e a proprietária da loja afirmaram que ainda não perceberam aumento no movimento provocado pela Copa do Mundo. Em compensação, notaram que o trânsito está ainda mais intenso que o habitual.
Mesmo assim, dizem estar felizes porque os visitantes descobrem uma Inglewood muito mais acolhedora do que imaginavam.
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