A Venezuela entra nesta segunda-feira (29) no quinto dia de buscas por sobreviventes nos escombros deixados pelo terremoto, com mais de 1.400 mortos confirmados. Diante do cenário devastador, o MSF (Médicos Sem Fronteiras) explica como tem atuado no país, onde já mantinha presença antes mesmo do desastre.
Em entrevista à CNN, Fábio Biolchini, coordenador de operações do MSF detalhou o panorama do trabalho da organização. Segundo ele, a Venezuela já vivia uma crise econômica grave há muitos anos, com sérias deficiências no sistema de saúde.
“Falta medicamento, falta insumos, faltam médicos, então realmente é um país que necessitava já de ajuda humanitária antes mesmo do terremoto”, afirmou. “Com a situação atual, claro que esse quadro se agrava bastante.”
Resposta imediata ao desastre
Por já estar presente no país antes do terremoto, o MSF conseguiu reagir com rapidez. “Já no mesmo dia, no dia seguinte dos dois terremotos, a gente já começou a distribuir kits de traumas de emergência para os hospitais que estavam recebendo centenas e milhares de pacientes”, relatou Biolchini.
Foram distribuídos kits equivalentes ao manejo de 3.500 pacientes, o que, segundo ele, “faz uma diferença enorme no país onde falta esse tipo de material”.
Passados quatro ou cinco dias do sismo, a fase de busca e resgate começa a se encerrar, dando lugar a uma nova etapa da resposta humanitária. Biolchini destacou que quase 1.500 edifícios foram danificados — muitos deles inutilizáveis —, deixando milhares de famílias sem ter para onde voltar.
“Essas pessoas estão começando a se acumular em diferentes locais espontâneos que vêm surgindo em Caracas e na região metropolitana”, explicou. “As necessidades humanitárias continuam e são crescentes.”
Logística e colaboração com o sistema local
Questionado sobre como funciona a atuação do MSF em situações como essa, Biolchini explicou que a organização sempre busca trabalhar em complementaridade com os demais atores humanitários e com o sistema de saúde local.
“O que a gente sempre tenta fazer é trabalhar em complementaridade com os outros atores que já estão trazendo ajuda humanitária, para evitar qualquer tipo de duplicação, qualquer tipo de desperdício de recursos”, disse.
Nas primeiras 24 a 48 horas em Caracas, o foco foi no fornecimento de insumos médicos essenciais, como anestesias, medicamentos e materiais para cirurgias.
A presença prévia da organização no país foi determinante para a rapidez da resposta. O MSF já contava com estoques e profissionais treinados localmente, além de um plano de preparação para emergências que contemplava o cenário de terremoto.
“No caso da Venezuela, o terremoto sempre foi um cenário possível, não é o primeiro terremoto da Venezuela, a gente sabe que é uma zona sísmica“, afirmou Biolchini. Novas equipes vindas da Colômbia também foram mobilizadas para ampliar a resposta.
Crise sobre crise
Biolchini descreveu como é doloroso ver um país que já enfrentava dificuldades crônicas ser atingido por um desastre de tal magnitude. “É bastante difícil e doloroso de ver um país que já estava passando por uma crise aguda, mais crônica há muitos anos, sofrer esse golpe fatal nesse momento”, declarou. “Realmente é uma catástrofe em cima de uma outra catástrofe que já existia anteriormente.”
Segundo ele, a crise econômica prolongada comprometeu a capacidade de resposta do Estado. “Um Estado que vive uma crise econômica crônica de tantos anos perde ao longo do tempo a capacidade de resposta”, disse.
“O próprio Ministério da Saúde não tem fundos suficientes para fazer esse tipo de resposta.” O terremoto atingiu não apenas Caracas e a cidade de La Guaira, mas também diversas outras cidades próximas ao epicentro, tornando ainda mais difícil cobrir todas as zonas afetadas.
Múltiplas crises simultâneas no mundo
Ao ser questionado sobre como a situação na Venezuela se compara a outras emergências em que o MSF já atuou, Biolchini reconheceu que a organização lida com terremotos com frequência — citando o Haiti em 2010 e a Síria e a Turquia em 2023 —, mas alertou para o desafio de responder a múltiplas crises ao mesmo tempo.
“Nós estamos vivendo múltiplas crises no mundo inteiro”, disse, mencionando os conflitos na Ucrânia, em Gaza e no Sudão, além do surto de ebola na República Democrática do Congo.
“As nossas equipes de emergências ficam sob uma pressão enorme, porque a gente tenta responder a tudo ao mesmo tempo, e não é nada fácil, faltam recursos, faltam recursos humanos, sobretudo”, afirmou.
