Carlo Ancelotti passou semanas alertando que garra, resiliência e capacidade de superar adversidades seriam decisivas em uma Copa do Mundo longa e desgastante. Contra o Japão, o Brasil mostrou que assimilou a mensagem, mesmo após transformar uma partida controlada em um confronto dramático.
A vitória por 2 a 1 foi muito mais do que um simples resultado. O jogo teve todos os ingredientes que marcaram grandes equipes comandadas por Ancelotti: domínio da partida, momentos de instabilidade, erros que complicaram o cenário e, por fim, uma reação decisiva quando a prorrogação parecia inevitável.
O técnico italiano conhece como poucos esse tipo de competição. Durante sua passagem pelo Real Madrid, suas equipes nem sempre foram impecáveis tecnicamente, mas tinham uma característica que frequentemente fazia a diferença: a convicção de que o jogo nunca estava perdido.
Foi exatamente esse espírito que levou o clube espanhol a protagonizar viradas históricas na Uefa Champions League 2021/22 contra Paris Saint-Germain, Chelsea e Manchester City, em uma campanha construída sobre frieza, coragem e capacidade de sobreviver aos momentos mais difíceis.
Durante décadas, o Brasil também carregou essa aura em Copas do Mundo. A Seleção parecia tratar o torneio como seu território natural, impondo respeito antes mesmo da bola rolar. Contra o Japão, porém, viveu as duas faces do modelo de Ancelotti.
Apesar de controlar boa parte da partida, a equipe voltou a sofrer com erros individuais. Danilo, improvisado na zaga, errou um passe na saída de bola, enquanto Casemiro, um dos jogadores de maior confiança do treinador, não conseguiu acompanhar a velocidade de um atacante japonês, mostrando que experiência nem sempre compensa a perda de intensidade física.
Por alguns momentos, o Brasil pareceu preso entre duas gerações: experiente demais para se desesperar, mas vulnerável o suficiente para deixar o adversário acreditar.
É justamente nesse cenário que os times de Ancelotti costumam crescer. O treinador nunca foi adepto de um domínio puramente estético. Suas equipes costumam encontrar força quando o jogo se torna caótico, emocional e imprevisível.
Foi o que aconteceu nos minutos finais. O jovem Rayan pressionou a saída de bola, recuperou a posse e iniciou a jogada que terminou nos pés de Bruno Guimarães, responsável por organizar a construção ofensiva.
O meio-campista encontrou Gabriel Martinelli, que havia saído do banco de reservas, infiltrando entre os defensores japoneses. O atacante finalizou com precisão para marcar o gol da vitória e garantir a classificação brasileira.
Para o Japão, foi um golpe devastador. Para o Brasil, representou mais do que uma vaga na fase seguinte: simbolizou o resgate de uma identidade competitiva.
A atuação esteve longe de ser perfeita, mas Ancelotti sempre defendeu que Copas do Mundo raramente são conquistadas apenas com brilho técnico. Os campeões são aqueles capazes de sobreviver aos próprios erros, resistir à pressão e acreditar que sempre haverá uma última oportunidade.
Depois de viver esse roteiro tantas vezes na carreira, o treinador agora tenta fazer com que a Seleção Brasileira escreva sua própria história.
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