O governo do Japão defenderá uma política monetária que estimule a demanda privada, mostrou um esboço de seu plano econômico de longo prazo visto pela Reuters, sinalizando uma preferência por manter baixos os custos dos empréstimos e gerando potenciais tensões com o banco central.
O esboço insta o Banco do Japão a alinhar suas decisões com a iniciativa da primeira-ministra Sanae Takaichi para impulsionar o crescimento, citando disposições legais que exigem que o banco central coordene a política com o governo.
A linguagem excepcionalmente explícita ressalta o crescente desconforto do governo Takaichi com novos aumentos de juros conforme o Banco do Japão sai de anos de política monetária ultrafrouxa, e sinaliza um impulso mais forte por coordenação que poderá definir o momento e o ritmo do aperto monetário nos próximos meses.
Ele também promete que o governo tomará medidas “ágeis e suficientes” para evitar um retorno à deflação, ao mesmo tempo em que impulsiona o crescimento de longo prazo.
“À medida que o governo busca alcançar um crescimento robusto por meio de suas políticas econômicas e fiscais, uma política monetária adequada que apoie a demanda privada por meio de aumentos de preços estáveis é extremamente importante”, mostrou o esboço rascunho analisado pela Reuters na quarta-feira (24).
Há muito tempo é costume que governos incluam um parágrafo sobre política monetária no documento, embora a maioria tenha mantido a linguagem deliberadamente vaga, normalmente instando o Banco do Japão apenas a orientar a política monetária de forma adequada para alcançar a estabilidade de preços.
O esboço do plano de Takaichi rompe com essa prática, exigindo explicitamente que a política monetária apoie a demanda privada e invocando a exigência legal de que o banco central se alinhe à política do governo.
Isso também ecoa o estímulo no estilo “Abenomics”, ao mesmo tempo em que reconhece um ambiente alterado de inflação oscilando em torno da meta de 2%, impulsionado em parte pelo choque de energia ligado ao Irã.
Takaichi é conhecida como defensora do “Abenomics”, uma combinação de grandes gastos fiscais e afrouxamento monetário ousada adotado pelo ex-primeiro-ministro Shinzo Abe para tirar o Japão de uma deflação prolongada.
“Embora a formulação seja indireta, a linguagem parece se opor aos aumentos de juros e ressalta a cautela do governo em relação aos riscos de desaceleração da economia associados a quaisquer aumentos prematuros de juros”, disse o ex-membro da diretoria do Banco do Japão, Takahide Kiuchi.
Os bancos centrais globais enfrentam pressão crescente de seus governos em relação à política monetária à medida que o choque de energia induzido pela guerra no Irã aumenta o risco de estagflação — uma combinação indesejável de crescimento baixo e inflação alta.
O documento, a ser finalizado em julho, será o primeiro a ser elaborado por Takaichi, que no passado já havia manifestado reservas em relação aos esforços do Banco do Japão para tirar a economia dos estímulos da era da deflação.

