Próxima adversária do Brasil na Copa do Mundo, a Escócia está indiretamente envolvida na chegada do futebol organizado ao território brasileiro no final do século XIX.
É amplamente conhecida a história de Charles Miller, o “pai do futebol brasileiro”, que, após um período de estudos na Inglaterra, retornou ao Brasil com um par de chuteiras, duas bolas de capotão e um livro de regras do esporte que estava se popularizando no Reino Unido.
“O que pouco se fala, entretanto, é que o paulista nascido no bairro do Brás tinha sangue escocês por parte de pai”, destaca a própria Fifa em seu site oficial.
Segundo o museu nacional de futebol da Escócia, Charles Miller era filho de John Miller, um engenheiro ferroviário escocês que vivia em São Paulo. John veio ao Brasil na década de 1860 para trabalhar em uma ferrovia que ligaria Santos a Jundiaí.
“[Charles] Miller foi enviado para Southampton para estudar e jogou futebol profissionalmente pelo condado de Hampshire”, destaca o Scottish Football Museum.
“Em outubro de 1894, ele retornou a São Paulo carregando duas bolas de futebol e um conjunto de regras do jogo, o que o levou a organizar uma partida memorável entre a Companhia Ferroviária de São Paulo e a Companhia de Gás em 14 de abril de 1895”, acrescentou.
“Miller ajudou a fundar o clube de futebol São Paulo Athletic Club (SPAC) e foi um dos fundadores da Liga Paulista. Como jogador, conquistou três campeonatos paulistas com o SPAC e também teve uma carreira de sucesso como árbitro e dirigente”, concluiu.
Em declaração ao portal oficial da Fifa, Carlos Rudge Miller Júnior, neto de Charles Miller, disse: “Gosto de falar que o futebol brasileiro tem a cara de um brasileiro. Ele demonstrou jogando na Inglaterra aquele jogo de cintura, a criatividade. O chute de ‘chaleira’ vem de Charles. Uma jogada diferente já. Gosto de pensar que o futebol brasileiro tem a cara de um brasileiro. Apesar da origem britânica, tem a cara do Brasil.”
O Scottish Football Museum ainda chama a atenção para outro personagem escocês relacionado aos primeiros passos do futebol no Brasil: o operário têxtil Thomas Donohoe, da vila escocesa de Busby, que chegou ao bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, em maio de 1894, poucos meses antes do retorno de Charles Miller.

“Acredita-se que Donohoe tenha organizado a primeira partida de futebol da história do futebol brasileiro. A partida, disputada entre cinco jogadores, ocorreu em abril de 1894, seis meses antes da partida de Charles Miller, anteriormente considerada a primeira no Brasil”, pontuou o museu.
“Historiadores locais do futebol atribuem a Donohoe e a outros operários escoceses ligados à fábrica têxtil de Bangu a introdução do futebol na região”, acrescentou.
Ao menos outros dois escoceses, segundo o museu, também tiveram destaque no início do futebol no Brasil.
Archie McLean, um engenheiro têxtil da cidade de Paisley, que chegou a São Paulo em 1912 para trabalhar na multinacional J&P Coats.

“Ao chegar em 1912, McLean fundou um time de futebol de expatriados, o Scottish Wanderers, que disputava partidas no campeonato paulista. As atuações de McLean chamaram a atenção do público brasileiro em menos de um ano. Ele também foi convocado para a seleção paulista contra o Rio de Janeiro. Antes da criação da Seleção Brasileira, essa convocação era a maior honraria para jogadores da região”, escreveu o Scottish Football Museum.
Além de McLean, o professor escocês Jock Hamilton, que passou a maior parte da carreira como jogador na Inglaterra, foi contratado em 1907 pelo Club Atlético Paulistano.

“Hamilton introduziu novos métodos de treinamento à equipe e chegou a treinar os filhos dos sócios do clube, tornando-se o primeiro técnico profissional contratado no futebol brasileiro. Jock introduziu o que ficou conhecido como “Sistema Inglês” – o jogo de passes curtos – bem como um programa sistemático de treinamento e preparação”, destacou o museu.

