A maior surpresa dentro da concentração de Cabo Verde na Copa do Mundo não é a ausência de grandes estrelas, mas a tranquilidade que cerca a equipe.
Poucos dias após empatar com a Espanha, atual campeã da Europa, e transformar o goleiro Vozinha em uma celebridade mundial, os Tubarões Azuis seguiam sua preparação para o duelo contra o Uruguai em um modesto centro de treinamento em Tampa, nos Estados Unidos.
Longe do assédio normalmente visto em seleções tradicionais, o ambiente da equipe é marcado pela simplicidade. Não há multidões de torcedores, forte esquema de segurança ou grande presença da imprensa. Apenas alguns fãs em busca de fotos e um grupo focado em seguir trabalhando.
No hotel da delegação, os jogadores circulam livremente entre os quartos e as áreas de convivência, recebendo familiares e amigos que viajaram das ilhas africanas e de comunidades cabo-verdianas espalhadas pelo mundo para acompanhar a primeira participação do país em uma Copa do Mundo.
O técnico Bubista também ajuda a manter o clima leve. Ele circula com naturalidade pela concentração, conversa com jornalistas, brinca com atletas e mantém uma relação próxima com o elenco.
História de Vozinha emociona o mundo
O ambiente descontraído resistiu até mesmo à transformação de Vozinha em um fenômeno global. Aos 40 anos, o goleiro viu sua popularidade explodir após a atuação decisiva diante da Espanha, quando foi eleito o melhor jogador da partida.
Após o empate histórico, Vozinha concedeu uma entrevista emocionada e lamentou que sua mãe e seus avós, já falecidos, não pudessem acompanhar aquele momento especial.
O depoimento repercutiu internacionalmente e mobilizou até autoridades dos Estados Unidos. O Departamento de Estado norte-americano agilizou a documentação necessária para que Ana Candida Evora, mãe do goleiro, pudesse viajar ao país e reencontrar o filho.
Apesar da repercussão, Vozinha fez questão de manter o foco da equipe.
“Estamos aqui pela seleção e pela Copa do Mundo. Sou muito grato por tudo o que aconteceu, mas, por favor, vamos falar de futebol”, afirmou o capitão.
Talento espalhado pelo mundo
Com cerca de 500 mil habitantes, Cabo Verde é formado por dez ilhas vulcânicas na costa oeste da África. A diáspora cabo-verdiana, porém, é ainda maior do que a população residente no país.
Essa realidade se reflete no elenco convocado por Bubista. Menos da metade dos 26 jogadores nasceu nas ilhas, com diversos atletas desenvolvidos em países europeus.
Segundo familiares dos irmãos Deroy e Laros Duarte, ambos nascidos na Holanda e integrantes da seleção, o potencial futebolístico cabo-verdiano sempre existiu, mas historicamente faltaram investimentos na modalidade.
A herança cabo-verdiana também está presente em nomes conhecidos do futebol mundial, como Patrick Vieira, Nani, Henrik Larsson e Cristiano Ronaldo.
Sonho do mata-mata
A classificação para a Copa já era considerada um marco histórico para Cabo Verde. No entanto, dentro da seleção, o objetivo sempre foi avançar para as fases eliminatórias.
O empate diante da Espanha aumentou ainda mais a confiança do grupo. O atacante Willy Semedo destacou a união do elenco como uma das principais forças da equipe.
“Conhecemos muito bem nosso grupo. Estamos juntos há bastante tempo. O ambiente sempre é excelente e agora precisamos levar essa energia para dentro de campo”, afirmou.
Entre familiares e torcedores presentes na concentração, o sentimento também é de otimismo. Após acompanhar o duelo contra a Espanha, Lajoyce Duarte acredita que a equipe pode surpreender novamente.
“Mostramos ao mundo inteiro do que somos capazes. Espero um jogo muito difícil contra o Uruguai, até mais complicado do que contra a Espanha, mas acredito que temos uma grande chance de vencer”, disse.
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