O órgão iraniano responsável pelo Estreito de Ormuz anunciou que dispensará as taxas previstas para o uso do estreito durante um período de negociação de 60 dias, nos termos do memorando de entendimento assinado com os Estados Unidos nesta semana.
O acordo, que prevê uma moratória de enriquecimento de urânio pelo Irã, é visto por analistas como um divisor de águas nas relações entre Washington e Tel Aviv.
Durante participação no videocast Fora da Ordem, o analista de internacional da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, afirmou que o acordo representa o fim da aliança estratégica entre os Estados Unidos e Israel.
Segundo ele, essa aliança era sustentada pela possibilidade de ambos os países atuarem militarmente juntos contra o Irã — algo que o novo memorando compromete os EUA a não fazer novamente.
Histórico nuclear iraniano e o contexto do acordo
Lourival destacou que acompanha a questão nuclear iraniana desde o início do século, tendo coberto o tema em viagens ao Irã em 2006, 2009, 2012 e 2018. Ele explicou que existe um decreto religioso de Ali Khamenei segundo o qual o Irã não pode possuir armas nucleares, por serem consideradas contrárias ao Alcorão por atingirem civis em massa.
No entanto, o país mantinha um programa nuclear subterrâneo que foi descoberto no início dos anos 2000, abalando a confiança do Ocidente.
O analista recordou que o acordo de 2015, conhecido como JCPOA, introduziu as inspeções mais rigorosas da história da Agência Internacional de Energia Atômica, garantindo que o Irã possuía apenas 300 quilos de urânio enriquecido a 3,67% — nível adequado apenas para geração de energia elétrica.
Quando os Estados Unidos romperam o acordo em 2018, o Irã passou a enriquecer urânio até 60%, acumulando 441 quilos nesse teor e 11 toneladas em algum grau de enriquecimento, o que fortaleceu significativamente sua posição negociadora.
Irã negociou em posição de força
De acordo com Lourival, o Irã chegou às negociações atuais em situação muito mais vantajosa do que em 2015.
“Nesse acordo, nessa negociação, o Irã estava em uma posição de muito mais força do que em 2015”, afirmou o analista.
Isso porque o país havia fechado o Estreito de Ormuz e acumulado quantidades expressivas de urânio altamente enriquecido. O resultado, segundo ele, foi um acordo muito mais favorável ao Irã — fato que tem gerado insatisfação entre republicanos considerados “falcões” em relação ao Irã e também em Israel.
O analista também ressaltou que o Irã aceitou diluir seus 441 quilos de urânio altamente enriquecido e fazer uma moratória de enriquecimento, mas não abriu mão de sua capacidade de enriquecimento, conforme previsto pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual é signatário.
As negociações dos próximos dois meses, segundo Lourival, “vão ser muito duras”, pois tratarão do substrato do programa nuclear iraniano.
Impacto estratégico no Oriente Médio
O primeiro parágrafo do memorando de entendimento estabelece que a soberania do Irã e do Líbano será respeitada e que forças estrangeiras serão retiradas das regiões do Estreito de Ormuz, do Golfo Pérsico e do Líbano. Para Lourival, essa cláusula tem implicações profundas.
“Isso significa o fim da aliança estratégica entre Estados Unidos e Israel, porque essa é uma aliança baseada na possibilidade, na ameaça de os Estados Unidos se juntarem a Israel para atacar o Irã”, declarou o analista.
Segundo ele, ao assinar o memorando, os Estados Unidos se comprometeram a não realizar mais esse tipo de ação conjunta, o que “pode mudar muita coisa estrategicamente no Oriente Médio”.

