O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na terça-feira (16), da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, e aproveitou o encontro para fazer críticas indiretas às políticas do governo dos Estados Unidos.
Sentado praticamente frente a frente com o presidente americano, Donald Trump, e com o anfitrião, Emmanuel Macron, Lula discursou em uma sessão sobre desenvolvimento sem citar nominalmente nem Trump nem os Estados Unidos.
Críticas ao protecionismo e ao unilateralismo
Em seu discurso, o presidente brasileiro criticou o neoliberalismo, apontando-o como responsável pela desigualdade econômica.
Em seguida, afirmou que “o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas” — uma referência, segundo o enviado especial e analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins, às tarifas impostas por Trump a diversos países, dando início a guerras comerciais e ao protecionismo da economia americana.
Soberania dos estados e crime transnacional
Lula também defendeu o respeito à soberania dos Estados no combate ao crime transnacional e ao tráfico de drogas, afirmando que esse esforço deve incorporar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol.
A declaração foi interpretada como uma crítica lateral à decisão do governo americano de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como entidades terroristas — uma decisão unilateral com a qual o governo brasileiro não concorda.
Reunião com líder japonesa e agenda do Mercosul
Antes do discurso, Lula se reuniu com Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão, para discutir as bases de um possível acordo de livre comércio entre o Japão e os países do Mercosul. Segundo Lula, o anúncio do início dessas negociações deve ocorrer no Paraguai no dia 30 de junho, durante a reunião de cúpula do Mercosul.
Outros temas da cúpula
A cúpula também foi marcada por discussões sobre conflitos internacionais. Pela manhã, os líderes do G7 se reuniram com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que pediu mais pressão sobre a Rússia para que o país aceite negociar o fim da guerra.
Além disso, líderes do Egito, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos se encontraram com Trump para discutir os detalhes de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã para o fim da guerra no Oriente Médio.
A cúpula continua nesta quarta-feira (17), com Lula previsto para fazer duas participações públicas: uma sobre desigualdades econômicas e outra sobre inteligência artificial.
Análise: ausência de cumprimento entre Lula e Trump não tem significado especial
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna avaliou que o fato de Trump não ter ido cumprimentar Lula durante a foto oficial da cúpula não deve ser interpretado como um sinal negativo.
Segundo Lourival, o presidente americano recebeu Lula por três horas na Casa Branca em março e tinha outras prioridades no encontro, como articulações em torno do Estreito de Ormuz e conversas com líderes do Oriente Médio envolvidos em um fundo de US$ 300 bilhões ligado às negociações com o Irã.
O analista também destacou que Trump separa bem os interesses comerciais dos Estados Unidos das relações pessoais com outros líderes, ressaltando que a chamada “química” entre os dois não significa concessões em temas como tarifas ou o sistema de pagamentos Pix — que, segundo o Lourival, é “uma criação legítima do Brasil” e não deve ser objeto de recuo por parte do governo brasileiro.

