A poucos dias do anúncio do Plano Safra 2026/27, cresce nos bastidores do agronegócio a avaliação de que o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) tem dificuldade para avançar justamente nas pautas consideradas mais urgentes para o setor.
O descontentamento não se restringe a produtores rurais e entidades representativas. Parlamentares, integrantes do governo e servidores da própria pasta relatam frustração com a falta de respostas para temas que hoje dominam a agenda do campo.
Entre eles, a renegociação das dívidas rurais de produtores afetados por sucessivas quebras de safra e os recentes cortes no orçamento do PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural) — medida que inclusive levou deputados a articularem a convocação de ministros para prestar esclarecimentos.
Nos bastidores, a principal crítica não é necessariamente dirigida ao ministro André de Paula, mas ao grupo responsável por cercá-lo.
A avaliação de diferentes interlocutores ouvidos pela reportagem é que auxiliares do ministro passaram a exercer um papel excessivamente centralizador, criando filtros para o acesso ao chefe da pasta.
Nesse contexto, o entorno estaria mais concentrado em blindar sua imagem e controlar a comunicação política do que em construir soluções para os problemas enfrentados pelo agro.
No entanto, as críticas não se restringem aos assessores. Representantes do setor afirmam que características atribuídas atualmente à gestão do Mapa já eram observadas durante a passagem de André de Paula pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, cadeira que ocupou nos últimos três anos.
Há quem avalie que o ministro tem priorizado agendas institucionais e compromissos protocolares, enquanto temas que exigem enfrentamento junto ao Palácio do Planalto e à equipe econômica avançam em ritmo lento.
Outro lado
Essa percepção, porém, não é unânime. Interlocutores reconhecem que André de Paula assumiu o comando do Mapa há pouco mais de dois meses, em uma estrutura que já contava com equipes formadas e agendas em andamento.
Para aliados e integrantes do governo, o curto período no cargo ainda limita uma avaliação definitiva, e parte das críticas decorre apenas da complexidade atual dos temas enfrentados pelo agronegócio.
No entanto, o principal reflexo dessa centralização é a perda de espaço do Mapa nos debates estratégicos junto ao Palácio do Planalto e à equipe econômica, justamente quando o setor mais demanda articulação.
Como sinal dessa dificuldade de interlocução, fontes relatam que o ministério buscou uma audiência presencial entre o ministro André de Paula e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tratar de temas prioritários, incluindo a agenda internacional. O encontro, no entanto, não ocorreu antes do petista ir em missão oficial à Europa.
A alternativa passou a ser uma conversa por telefone, que, até a publicação desta matéria, não havia sido formalmente registrada.
Muita agenda e pouca solução
Diante do sumiço do protagonismo do ministro nas principais negociações em curso, a percepção de isolamento é reforçada pela comparação entre as demandas urgentes e a agenda pública divulgada pela pasta.
Desde que assumiu o comando da Agricultura, André de Paula se comprometeu em abrir as portas para representantes do setor, dialogar e ouvir — o que de fato vem acontecendo.
O ministério também tem destacado ações como aberturas comerciais — que já passaram de 600 —, o reconhecimento de todo o território brasileiro pela China e Rússia como área livre de febre aftosa sem vacinação, reuniões institucionais, encontros internacionais e discussões sobre cooperação multilateral.
Embora o setor reconheça a importância dessas iniciativas, interlocutores afirmam que elas são tímidas e não respondem aos problemas imediatos.
“A sensação é que há muita agenda e pouca solução”, resumiu uma fonte ligada ao setor sob condição de anonimato.
Diante da dificuldade de avançar em pautas complexas e estruturais — que envolvem desde as discussões com a União Europeia até a questão dos antimicrobianos —, parlamentares afirmam que passaram a levar ao ministério demandas mais pontuais e de menor desgaste político, como a revisão ou suspensão de normas específicas, como a “Portaria do Morango”, que foi publicada em fevereiro e suspensa na semana passada por 60 dias após forte reação do setor e de parlamentares.
Crise e desânimo nos bastidores técnicos
A insatisfação ecoa dentro da própria pasta. Segundo fontes com conhecimento das discussões internas, cresce a percepção de que decisões importantes travam por falta de coordenação e de definição clara de prioridades.
O cenário tem gerado desânimo entre as equipes técnicas, e já há servidores avaliando seus próximos passos e a permanência dentro da estrutura do ministério.
O resultado é um cenário de crescente desgaste. Produtores, parlamentares e representantes do setor afirmam que a cobrança sobre o ministério deve aumentar drasticamente nas próximas semanas, especialmente com a proximidade do anúncio do Plano Safra e a urgência por soluções para o endividamento rural.

