Seis pessoas morreram após a colisão entre dois helicópteros no Recreio dos Bandeirantes neste domingo (14), no Rio de Janeiro. O trabalho de perícia foi iniciado no local, e o piloto Rafael Santos concedeu entrevista à CNN para analisar as possíveis causas do acidente e detalhar os protocolos de investigação envolvidos nesse tipo de ocorrência.
As aeronaves envolvidas no acidente eram um Aerocópter AS-350B2, de 2012, e um Bell 206B, de 1999. Segundo Rafael Santos, o ano de fabricação não é o fator determinante para avaliar a qualidade de um helicóptero.
“A gente não mede avião e helicóptero pelo tempo que ele foi feito, mas da maneira que ele foi arrumado”, afirmou. Para o piloto, ambos os modelos são equipamentos de alto padrão, e, em uma análise preliminar, os modelos em si não teriam contribuído para o acidente.
Rafael Santos também contextualizou a aviação como uma atividade de risco mitigado. De acordo com ele, toda vez que um acidente ocorre, independentemente do modelo ou do local, algum elemento do sistema de proteção e mitigação de riscos falhou.
“Toda vez que acontece um acidente, alguma coisa nesse sistema de proteção de mitigação de risco falhou”, explicou.
Voos privados e diferenças de protocolo
Ambas as aeronaves estavam registradas como helicópteros de uso privado e não estavam autorizadas para realizar voos comerciais. Rafael Santos explicou que, quando um helicóptero é utilizado para transportar terceiros — como em serviços de táxi aéreo —, ele passa por uma certificação diferente, com procedimentos mais rigorosos de treinamento, controle e manutenção.
No caso de voos privados, esse nível adicional de exigência não se aplica da mesma forma. “No momento que a gente vai alocar isso para um terceiro, a gente passa por uma certificação diferente e procedimentos diferentes”, detalhou.
Quanto à comunicação entre as aeronaves, o piloto explicou que, em voos realizados de forma visual, a separação entre as aeronaves é coordenada pelos próprios pilotos, que utilizam uma frequência de rádio compartilhada.
“Provavelmente, os helicópteros estavam se coordenando entre ambos em uma frequência segregada para isso”, disse Rafael Santos, acrescentando que todos os pilotos que operam na região têm acesso a essa frequência para monitorar a posição uns dos outros.
Investigação: CENIPA e Polícia Civil têm papéis distintos
Rafael Santos também esclareceu as diferenças entre as investigações conduzidas pelo CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) — órgão ligado à Força Aérea Brasileira — e pela Polícia Civil. Segundo ele, o CENIPA não realiza inquérito policial nem busca identificar culpados.
“Ela entende causas e busca fatores para que acidentes como esse não ocorram no futuro”, explicou. Já a Polícia Civil é responsável pelo inquérito policial, uma vez que houve vítimas. “A responsabilidade do CENIPA não é investigar o acidente encontrando culpados. Ele busca o porquê, o quê, não o quem”, resumiu.
O piloto ainda destacou que o CENIPA só inicia seu trabalho após o Corpo de Bombeiros liberar o local do acidente, e que a investigação do órgão costuma ser longa e criteriosa.
“Essa investigação normalmente demora no Brasil de dois a cinco anos”, afirmou, citando como exemplo um acidente anterior cujo relatório final ainda não foi divulgado, deixando dezenas de famílias sem respostas.
Rafael Santos pediu mais celeridade e transparência por parte do CENIPA, comparando o modelo brasileiro ao dos Estados Unidos, onde audiências públicas abertas são realizadas poucos dias após um acidente.
Caixas-pretas e hipóteses sobre o acidente
Sobre a possibilidade de as aeronaves estarem equipadas com caixas-pretas, Rafael Santos explicou que helicópteros podem ser equipados com gravadores de voo e de voz, mas que esse equipamento não é obrigatório para aeronaves que não operam como táxi aéreo.
Para o piloto, a colisão em voo pode ter sido precedida por múltiplas falhas no sistema. “Em aviação, para cada nove incidentes, o décimo é um acidente”, disse, listando como hipóteses uma separação inadequada entre as aeronaves, uma comunicação fora do padrão ou até um voo realizado de forma irregular.
Ele ressaltou, no entanto, que todas essas são especulações preliminares, e que a investigação adequada caberá às autoridades competentes.

