As fileiras de currais estão vazias. O confinamento Lubbock Feeders, no oeste do Texas, está à beira da falência após a interrupção das importações de gado do México para os EUA desde o ano passado.
A oferta de gado mexicano representava a maior parte dos animais engordados ali, de acordo com um dos proprietários.
Há um ano o governo dos EUA fechou a fronteira, e o comércio de gado vivo, na esperança de conter a larva-da-mosca-da-bicheira-do-novo-mundo. Uma praga que as autoridades mexicanas lutam para controlar.
Depois de 60 anos, o primeiro caso da bicheira-do-novo-mundo foi confirmado em uma fazenda no Texas, representando um novo desafio para a pecuária dos EUA, já prejudicada pela escassez de animais, pelas políticas comerciais do presidente Donald Trump e pela seca severa.
Porém, uma história bem mais animadora está do outro lado da fronteira, no estado de Coahuila, norte do México. Os pecuaristas mexicanos costumados a enviar “gado em pé” para a engorda exportam agora a carne bovina, o produto final, para os Estados Unidos.
Os currais do pecuarista Enrique García estão cheios de animais aguardando o trato da tarde. Ele dobrou a força de trabalho, tanto na engorda quanto no processamento da carne, com as estimativas de aumentar as vendas aos consumidores norte-americanos.
No Texas, principal produtor de gado nos Estados Unidos, o fechamento da fronteira fez a indústria de carne bovina, avaliada em US$ 100 bilhões, encolher.
Mas no México, onde a bicheira-do-novo-mundo infestou quase 28.000 animais, a indústria de carne bovina capitalizou sobre o problema ao construir seus próprios confinamentos, reter os animais por mais tempo, prepará-los para o abate, além de expandir as instalações frigoríficas.
Nos primeiros quatro meses de 2026, as exportações de carne bovina mexicana para os EUA dispararam.
“Se eles acabarem engordando e processando os animais no México, como é que nós o que nós vamos fazer?”, questiona Kyle Williams, gerente e coproprietário da Lubbock Feeders. “Estamos entregando a indústria de confinamento de bandeja. Estamos falando de empregos, de mão de obra, são pessoas que estão deixando de trabalhar aqui nos EUA.”
REBANHO BOVINO DOS EUA ENCOLHE
Os preços da carne bovina nos EUA atingiram recordes históricos este ano quanto o rebanho encolhe e atinge o menor nível em 75 anos.
Além da proibição de importar gado do México a estiagem severa alimentou incêndios florestais pelas planícies e pastagens, levando os produtores norte-americanos a reduzirem seus rebanhos e investimentos.
Os EUA importavam, por ano, mais de um milhão de cabeças de gado do México. O que representava cerca de 4% a 5% de todo o gado comercializado para a produção de carne bovina no país, segundo dados do setor.
Os animais vindos do México eram engordados nos confinamentos e depois enviados para os frigoríficos dos EUA, gerando empregos ao longo de toda cadeia produtiva que incluía os caminhoneiros que transportavam o gado, os agricultores que cultivavam grãos para alimentar os animais e os trabalhadores da indústria frigorífica no abate e na produção dos cortes.
Agora, o gado está ficando majoritariamente no México onde é criado e abatido. “Os mexicanos foram forçados a encontrar uma solução e estão construindo a infraestrutura”, diz Williams.
O USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) poderia retomar as importações de forma segura com inspeções e tratamentos de gado nos portos de entrada, acrescenta Williams. “Esses protocolos já existem. Há treinamento em ambos os lados da fronteira. Deixem o gado circular”, reforça o dono do confinamento.
A bicheira-do-novo-mundo é um parasita e pode infestar qualquer animal de sangue quente quando as fêmeas depositam ovos em feridas abertas. Durante uma epidemia no século XX, os EUA lançaram milhares de moscas estéreis sobre os focos a partir de uma biofábrica no Texas, e que agora tentam ressuscitar.
O esforço massivo de erradicação encerrou a epidemia. Mas a indústria pecuária levou 30 anos para se recuperar, diz a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, ao justificar o fechamento da fronteira com o México em maio do ano passado. Suspender o trânsito de gado pode desacelerar a propagação da praga, reafirmou a secretária Rollins esta semana.
A Lubbock Feeders parou de receber gado em seu confinamento há meses. Os preços altos do gado criado nas fazendas norte-americanas não justificam o investimento e significam perda de mais de US$ 200 por cabeça.
O confinamento tem capacidade para abrigar até 40.000 bovinos, mas seu estoque caiu para cerca de 4.000.
Bobby Swift, gerente do confinamento, chega mais tarde ao trabalho porque há pouco o que fazer. Uma de suas funções, que é vistoriar o gado, leva apenas 22 minutos por conta do número reduzido de animais, diz ele.
“Quando o ritmo está devagar assim, isso mexe com o seu psicológico”, desabafou Swift, funcionário há 30 anos, cujo pai e avô também trabalharam na Lubbock Feeders.
RECONSTRUÇÃO DA PECUÁRIA DE CORTE É LENTA
A inflação da carne bovina tornou-se um problema para os consumidores.
O presidente Donald Trump tentou conter a situação pressionando os produtores de gado a baixarem os preços, ordenando que o Departamento de Justiça investigue os frigoríficos e permitindo importações com tarifas baixas da Argentina.
Só o aumento do rebanho bovino nos EUA pode ajudar a reduzir os preços da carne de forma mais eficaz.
Os frigoríficos americanos estão esperando que os pecuaristas locais expandam seus rebanhos para aumentar a produção de carne, um processo que pode levar dois anos.
Os produtores dizem que a pressão de Trump por maiores importações de carne bovina da Argentina, com tarifas baixas, tornou mais difícil de convencê-los a reconstruir os rebanhos. A medida desagradou os pecuaristas e não conseguiu reduzir os custos para os consumidores.
Os produtores também têm demonstrado relutância em aumentar a produção devido aos riscos do clima seco e à incerteza em relação aos lucros futuros.
Em Tulia, Texas, e 116 km ao norte de Lubbock, o produtor Eddie Womack diz que pode reduzir seu rebanho de cerca de 600 vacas para 200, a menos que a chuva chegue neste verão para aliviar a seca severa que o deixou sem lavouras para usar como silagem/trato. Em vez disso, ele passou a comprar ração a custos mais elevados.
“Se passarmos por mais um ano devastador, teremos que dizer: ‘Acabou e vender tudo'”, diz Womack, de 63 anos.
PRODUTORES MEXICANOS LUCRAM
García é um dos muitos produtores de carne em expansão no México. Ele começou a engordar gado em pequena escala há quatro anos para diversificar seus negócios, após exportar anteriormente cerca de 900 cabeças anualmente para o Kansas.
O fechamento da fronteira americana acelerou sua transição e ajudou a aumentar sua renda entre 8% e 10%, conta García. Com os casos de bicheira-do-novo-mundo nos EUA, é improvável que a fronteira seja reaberta em breve, o que estimula García a expandir seu negócio de produção de carne. “No final das contas, vamos chegar aos Estados Unidos do mesmo jeito, mas agora com a carne processada”, afirma.
As exportações do México para os EUA saltaram 23% nos primeiros quatro meses de 2026, de acordo com a principal associação de produtores de carne do México, que pretende dobrar os embarques no próximo ano.
Coahuila, um dos principais estados exportadores de carne bovina do México, incentiva a expansão da capacidade de abate, com certificação federal dos EUA, para apoiar as exportações com a ajuda do governo mexicano, afirma Isaias Montemayor, subministro de pecuária e infraestrutura rural do estado.
“O passar dos meses nos ensinou que se esses produtores agregarem valor. Eles podem obter um lucro igual ou até maior do que obteriam se exportassem bezerros vivos”, diz Montemayor.
A secretária Rollins diz que a suspensão das importações de gado mexicano atrasou com sucesso a incursão da bicheira nos EUA, e que a fronteira e a comercialização de gado do México, permanecerão fechados até novo aviso.
Em nota o USDA diz que “os esforços nos níveis federal, estadual e local têm se concentrado em conter a praga e implementar protocolos.”
Rogelio Pérez, da Confederação Nacional de Organizações Pecuárias do México, conta que o fechamento da fronteira forçou a indústria do México a se ajustar e acabou por fortalecê-la. “O lucro da produção de carne agora fica no México, com o consequente impacto na indústria americana”.
FRIGORÍFICOS SOB PRESSÃO
O fechamento da fronteira pressionou também as margens dos frigoríficos nos EUA, além de alguns confinadores, ao agravar a oferta doméstica que já estava restrita.
Processadoras como a Tyson Foods registraram prejuízos acentuados em suas divisões de carne bovina nos EUA, uma vez que os custos para compra de boi superaram os ganhos nos preços da carne no atacado.
Executivos de frigoríficos americanos dizem que precisam de mais animais para operar as plantas com eficiência. E que a retomada das importações do México teria o maior impacto sobre a oferta nos próximos 12 a 18 meses.
A Tyson Foods cortou operações este ano em uma unidade de carne bovina em Amarillo, Texas, cerca de 193 km ao norte de Lubbock, e fechou permanentemente uma enorme planta de carne bovina em Nebraska. A empresa informou que realizou os cortes e demissões para se manter competitiva.
JBS e Cargill enfrentam disputas trabalhistas raras em unidades de carne bovina nos EUA, resistindo às demandas dos trabalhadores por salários mais altos.
Darin Parker, presidente da distribuidora global de carne PMI Foods, acredita que o USDA deveria reabrir a fronteira. “Estar na indústria de carne bovina é a quintessência da cultura americana. Precisamos realmente proteger esse setor”, completa Parker.
(reportagem de Tom Polansek em Lubbock, Texas, e Cassandra Garrison em Saltillo, México; Edição de Emily Schmall e Claudia Parsons)

