Bill Gates prestará depoimento a portas fechadas no Capitólio nesta quarta-feira (10), após a divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein, que levantaram questionamentos sobre os laços do bilionário com o falecido criminoso sexual condenado — marcando um dos depoimentos mais importantes perante investigadores do Congresso até o momento.
O Comitê de Supervisão da Câmara solicitou a cooperação voluntária de Gates após um conjunto de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelar uma série de alegações gráficas e não verificadas, bem como um grau de coordenação filantrópica entre Gates e Epstein mais detalhado do que se sabia anteriormente.
Nesta que é a 15ª entrevista do comitê, espera-se que Gates responda a perguntas de republicanos e democratas sobre a extensão de seu relacionamento com o empresário falecido.
Gates está entre as muitas figuras poderosas na órbita de Epstein — de Howard Lutnick a Bill Clinton — que apareceram em vídeos ou fotos divulgados pelo Departamento de Justiça a partir dos arquivos do caso.
Ao falar com repórteres ao chegar ao Capitólio, Gates disse estar “feliz por estar ali voluntariamente para depor e ajudar no trabalho da comissão”, acrescentando que começaria com uma declaração de abertura.
“Espero que meu depoimento seja útil ao trabalho, importante trabalho do comitê, para encontrar justiça para as vítimas”, expressou ele.
Como a CNN noticiou anteriormente, os elementos mais explosivos da divulgação anterior de documentos envolviam dois rascunhos de e-mails que Epstein parece ter escrito em julho de 2013.
Nessas anotações de fluxo de consciência, repletas de erros de digitação e vitríolo, Epstein parece alegar que facilitou encontros sexuais para Gates e o ajudou a obter medicamentos para esconder uma infecção sexualmente transmissível de sua esposa.
Não está claro quem escreveu as mensagens de rascunho de 2013 salvas na conta de e-mail de Epstein, nem se elas chegaram a ser enviadas, mas elas são endereçadas do financista para si mesmo.
Embora os e-mails sugiram, na época, algum tipo de ruptura na amizade entre eles, os encontros e as trocas de e-mails continuaram durante esse período.
Epstein afirmou em um e-mail que ajudou Gates a conseguir drogas “para lidar com as consequências do sexo com garotas russas” e “encontros ilícitos com mulheres casadas”. O e-mail também menciona o dono da Microsoft pedindo a Epstein que fornecesse Adderall para torneios de bridge.
O outro rascunho de e-mail alega que Gates, em lágrimas, pediu ao financista que apagasse mensagens que faziam referência a uma DST, “seu pedido para que eu lhe fornecesse antibióticos que você pudesse dar secretamente a Melinda” e que apagasse detalhes pessoais explícitos sobre seu pênis.
As alegações contidas no rascunho do e-mail não foram verificadas nem corroboradas. Não há indícios de que a mensagem tenha sido compartilhada com Gates ou qualquer outra pessoa, e o fundador da Microsoft não foi acusado de qualquer delito criminal relacionado a Epstein.
Ele negou veementemente as acusações e um representante declarou anteriormente à CNN:
“Essas alegações são absolutamente absurdas e completamente falsas. A única coisa que esses documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter um relacionamento contínuo com Gates e os extremos a que ele chegaria para armar uma cilada e difamá-lo. Embora o Sr. Gates reconheça que o encontro com Epstein foi um grave erro de julgamento, ele nega categoricamente qualquer conduta imprópria relacionada a Epstein e às atividades horríveis nas quais Epstein estava envolvido. O Sr. Gates nunca visitou a ilha de Epstein, nunca participou de festas com ele e não teve qualquer envolvimento em atividades ilegais associadas a Epstein.”
O fundador da Microsoft foi questionado sobre os documentos mais recentes em uma entrevista à afiliada da CNN, Nine News, na Austrália, em fevereiro.
“Aparentemente, Jeffrey escreveu um e-mail para si mesmo. Esse e-mail nunca foi enviado, o e-mail é falso. Então, não sei o que se passava na cabeça dele. Isso só me lembra que me arrependo de cada minuto que passei com ele e peço desculpas por isso”, disse Gates.
Depoimento sobre o caso
O presidente do Comitê de Supervisão da Câmara, James Comer, disse à CNN antes do depoimento de Gates que não havia limitações quanto ao escopo das perguntas para a entrevista a portas fechadas desta quarta-feira (10).
“Nós apenas temos perguntas. Não estou acusando Bill Gates de qualquer irregularidade. Sabemos que ele passou muito tempo com o Sr. Epstein. Só queremos perguntar o que ele sabia e se viu certas coisas”, disse Comer na terça-feira.
“Tudo está em aberto”, acrescentou o republicano do Kentucky, observando que, embora Gates possa não estar “ansioso” para depor, ele está “disposto” a falar.
As mais de três milhões de páginas divulgadas pelo Departamento de Justiça contêm centenas de referências a Gates, incluindo inúmeros e-mails detalhando agendas com reuniões, refeições, telefonemas propostos e tentativas de Epstein de marcar encontros com Gates.
Todas as interações documentadas ocorreram após a condenação de Epstein em 2008 por acusações relacionadas à prostituição, seja em um jantar que os dois compartilharam em 2010 ou em um encontro na Noruega em agosto de 2012.
“Gostei muito do café da manhã”, escreveu Gates a Epstein em dezembro de 2014.
Epstein respondeu dizendo, em parte: “como sempre, todos gostaram muito de você” e concluiu convidando-o para sua ilha particular, que Gates afirma nunca ter visitado. Não há indícios de que ele tenha aceitado o convite.
Antes do comparecimento de Gates ao Capitólio, o deputado democrata Robert Garcia, principal democrata na Comissão de Supervisão da Câmara, afirmou ser “muito preocupante” que Gates tenha mantido contato com Epstein após a condenação do falecido criminoso sexual.
“Já dissemos que não nos importamos se você é republicano ou democrata, ou quem você seja. O fato de o sr. Gates ainda ter mantido contato com o sr. Epstein mesmo depois de saber da condenação, sabendo, na verdade, o que ele havia feito, é muito preocupante. Portanto, queremos saber o que o Sr. Gates sabia, quem mais estava em seu círculo de influência e por que o sr. Gates continuou a ter contato com o Sr. Epstein”, disse Garcia na terça-feira.
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