O homem que cruzou os céus em 110 voos diferentes apenas no último ano vive uma rotina interminável de embarques e desembarques, mas se recusa a cancelar a próxima partida. Ao decifrar o universo dos aviões e companhias aéreas, Richard Quest diz que estar nesse tubo de metal que rasga a atmosfera a 900 quilômetros por hora ainda lhe toma os pensamentos com o fascínio da primeira infância.
No entanto, o jornalista guarda um segredo de bordo: o que ele realmente persegue ao cruzar as nuvens é um ativo escasso, que não se encontra em solo, não consta nos balanços financeiros e — o pior para o mercado — dinheiro nenhum no mundo é capaz de comprar.
Para a icônica voz dos negócios internacionais da CNN, o ato de voar preserva a mesma força gravitacional que o capturou na infância no Reino Unido. Quest não encara a aviação como um mero meio de transporte, mas como um fenômeno que beira o inexplicável.
“Pense nisso: ele decola, ele voa. Você assiste a um avião rugir na pista, cada vez mais rápido, e de repente ele levanta voo e ruma para o céu. Como ele faz isso? Nós sabemos como funciona, mas o fato de que faz é mágica”, derrete-se o jornalista, ao imitar o movimento de decolagem com as mãos.
Ao longo de décadas como correspondente internacional, esse fascínio migrou da física e engenharia para a observação social. Para ele, o verdadeiro espetáculo do voo está na carga dramática e emocional que preenche cada assento. Considera que cada decolagem é um resumo imperfeito da própria existência humana em alta velocidade.
“Quando aquele avião decola, olhe para ele e pense em todas as pessoas a bordo. Quem está indo para um novo emprego? Quem está voltando para casa? Quem está indo se casar ou se despedir de um ente querido? Quem está indo ver um avô? Pense em toda a emoção da vida. Os motivos pelos quais estamos aqui estão todos naquele tubo de metal, e é isso que o torna fascinante”.
O verdadeiro luxo do silêncio
Mesmo acumulando jornadas extremas, Quest mantém hábitos muito particulares a bordo. Ele confessa gostar da comida de avião, celebrando “a pequena bandeja e o gosto da comida dela” como uma indulgência legítima.
No entanto, o que ele realmente busca a 30 mil pés é um ativo escasso na economia moderna: a desconexão.
Em um cenário corporativo globalizado, onde a internet a bordo se tornou uma ferramenta de cobrança profissional ininterrupta, Quest escolhe deliberadamente o assento do silêncio e do isolamento digital.
“Para mim, a melhor parte quando se está no ar é apenas olhar pela janela. Eu tento não me conectar. Tento não ligar meu telefone, talvez faça isso uma ou duas vezes em um voo longo apenas para mensagens. Eu amo estar sentado, ler, olhar pela janela e pensar”.
Para o jornalista que passa a vida buscando respostas dos entrevistados, o momento mais marcante de qualquer viagem ainda se resume a cinco palavras proferidas pelos comissários de bordo antes da decolagem. “Eu sempre digo quais são as minhas palavras favoritas? ‘Cabin crew, doors to automatic’ (Tripulação, portas em automático). Porque significa que a jornada e a aventura estão prestes a começar”.
Entenda como novo avião da Airbus pode transformar mapa aéreo do mundo

