A queda da fecundidade acompanhou, em certa medida, o crescimento do pessimismo sobre o futuro, segundo Renato Dolci, sociólogo e diretor de dados da Time Lens. Para ele, a percepção de que o amanhã será pior do que o presente pesa sobre a decisão sobre ter ou não filhos.
Dolci afirma que o ambiente digital amplifica essa visão negativa. “De um lado, a gente é impactado todos os dias por uma série de notícias e informações que não parecem que o mundo está indo para um lugar melhor”, declarou o sociólogo. Ele destacou ainda que o advento da inteligência artificial intensificou esse sentimento, alimentando o temor de que o futuro será marcado por menos abundância e pela substituição de trabalhadores por máquinas.
Para ilustrar sua análise, Dolci apresentou um estudo que conduziu sobre filmes de ficção científica produzidos desde os anos 1950. O objetivo era compreender como a percepção coletiva sobre o futuro foi se transformando ao longo das décadas, a partir do conteúdo simbólico dessas produções.
De acordo com o sociólogo, nos anos 1950 e 1960, os filmes retratavam um futuro promissor. Já a partir dos anos 1970, com crises como a da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), as distopias pessimistas começaram a surgir com mais frequência. Nos anos 1980, esse cenário se agravou significativamente, enquanto nos anos 1990 houve uma melhora considerável, período que Dolci associou à queda da União Soviética e à perspectiva de prevalência do liberalismo no mundo — uma visão que ele relacionou ao conceito do “fim da história”.
A tendência, no entanto, voltou a se deteriorar nos anos seguintes. Segundo Dolci, a partir dos anos 2000, as distopias passaram a retratar futuros cada vez mais sombrios. O cenário atingiu seu ponto mais expressivo na década de 2010, quando, de acordo com o estudo, 75% da produção de filmes de ficção científica passou a mostrar um futuro considerado “horroroso”.
Para o sociólogo, esse dado tem valor simbólico relevante para entender o comportamento social contemporâneo. A ideia de que “o futuro no digital não parece um lugar bom”, nas palavras de Dolci, reflete e reforça uma mentalidade coletiva que, segundo ele, está diretamente conectada à decisão das pessoas de ter mais ou menos filhos.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
Conheça o Clube de Membros da CNN Brasil no YouTube. Ao se cadastrar, você garante acesso antecipado à íntegra da edição já às sextas-feiras, além de cortes exclusivos e conteúdos de bastidores do programa.

