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Brasil fora da lista de exportadores da UE: especialista analisa riscos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)

A Comissão Europeia publicou uma atualização da regulamentação que altera as condições para a importação de animais e produtos de origem animal destinados ao consumo humano no bloco.

O Brasil permanece fora da lista de países considerados aptos a atender às novas exigências europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal. A decisão gera preocupação entre os agentes da cadeia produtiva e pode trazer reflexos significativos para o comércio de carnes com um dos principais mercados importadores do mundo.

Em entrevista ao Agora CNN, Fernando Henrique Iglesias, analista de mercado da Safras & Mercado, explicou o que está em jogo e quais são os principais obstáculos enfrentados pelo Brasil para se adequar às exigências europeias.

O que a Europa exige do Brasil

Segundo Iglesias, o Brasil precisa entregar documentação completa que comprove a rastreabilidade de toda a cadeia produtiva. “O que a Europa está pedindo, está solicitando ao Brasil, é um controle de todas as etapas desde o nascimento desse animal até o abate”, explicou o analista.

O grande problema, segundo ele, é que nem todas as regiões do país cumprem essas condições, especialmente no setor de bovinocultura de corte. “Muito provavelmente alguns estados brasileiros, se não todos, ficarão impossibilitados de exportar carne bovina a partir do dia 3 de setembro”, alertou.

Para outros setores, o cenário é menos preocupante. Iglesias destacou que, para a avicultura e a apicultura, a tramitação tende a ser mais simples e rápida, o que torna mais provável que o Brasil mantenha o fluxo de exportações de carne de frango e mel para o bloco europeu. Além disso, a União Europeia permitiu que cada setor negocie separadamente, o que abre espaço para que ao menos parte da cadeia produtiva consiga se adequar dentro do prazo.

Impacto econômico e o prazo de setembro

Do ponto de vista econômico, Iglesias ressaltou que ainda não há impacto imediato, uma vez que a suspensão só entra em vigor a partir de 3 de setembro. No entanto, os produtos de origem animal afetados representam cerca de U$ 1,7 bilhão em exportações anuais, o que traz uma perspectiva de redução relevante no volume exportado para o bloco. “Vai dificultar muito o acesso”, afirmou o analista.

O analista também chamou atenção para o papel da Europa como referência global. “A Europa é aquilo que nós chamamos de mercado vitrine. O resto do mundo acaba se espelhando nas decisões europeias”, disse Iglesias. Ele citou como exemplo recente a suspensão das exportações de quatro frigoríficos brasileiros para a China, motivada pela presença de determinados fármacos veterinários, como um sinal de que decisões europeias podem influenciar outros mercados importantes.

Protecionismo técnico e disputas geopolíticas

Questionado sobre se a decisão teria um pano de fundo mais político do que técnico, Iglesias afirmou que as duas dimensões coexistem. Segundo ele, a regulamentação sobre antimicrobianos não é algo novo — a Europa trabalha essa regulamentação desde a década passada e concedeu tempo para que os fornecedores se adequassem. Porém, o analista foi direto ao apontar o componente protecionista: “Eles estão usando isso para proteger a produção local, isso é evidente. A Europa não tem condições de competição com o produto que vem aqui da América do Sul, em especial do Brasil”.

Iglesias destacou ainda a diferença de custos de produção: enquanto a arroba do boi gordo no Brasil está na faixa de U$ 70, na União Europeia o mesmo produto custa entre U$ 110 e U$ 120. Para ele, a carne se tornou um ativo de disputas geopolíticas, envolvendo China, União Europeia e Estados Unidos. “Tudo isso tem muito mais dentro dessas disputas comerciais do que simplesmente oferta e demanda, como vemos em outros mercados”, concluiu.

Desafios para os frigoríficos e caminhos a seguir

Ao analisar o impacto sobre os principais frigoríficos brasileiros listados em bolsa, Iglesias avaliou que a MBRF, com foco em avicultura e suinocultura, deve conseguir manter um fluxo relevante de exportação de frango. Já o frigorífico Minerva teria como alternativa as operações no Uruguai e na Argentina, tornando-o menos vulnerável. Para a JBS, na operação Brasil, o cenário pode ser mais complicado, especialmente diante do esgotamento da cota chinesa e das restrições europeias.

O analista enfatizou que o Brasil precisa consolidar urgentemente uma estratégia para entregar a documentação pendente e demonstrar quais regiões estão aptas a atender às condições europeias. “Não é simples, não são medidas simples, não é uma situação simples de se resolver, e nós temos basicamente três meses para desenrolar essa questão”, disse Iglesias. Para ele, será necessário um trabalho conjunto da indústria e do governo brasileiro para encontrar uma saída diplomática e manter os produtos de origem animal no mercado europeu.

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