O governo federal tem realizado uma ofensiva ao longo dos últimos anos no mercado internacional para ampliar a abertura comercial do país.
Um dos porta-vozes dessa missão, o secretário de Relações Exteriores do Ministério da Agricultura, Luis Rua, destaca à reportagem que “abrir mercados é criar oportunidades”.
“A estratégia adotada pelo Brasil, de ampliação e diversificação de mercados influencia para não haver dependência de quaisquer mercados em específico. Significa mais exportações, mais renda, mais destinos para os produtos brasileiros e menos dependência de poucos compradores”, pontua Rua.
Só no agronegócio – um dos principais pesos do PIB (Produto Interno Bruto) e da balança comercial do país -, o alcance subiu de 555 mercados ao final de 2025 para 616 atualmente.
E nesse sentido, Rua é enfático: “os resultados já aparecem”. Segundo o secretário, o país colhe mais de US$ 5 bilhões em exportações associadas aos novos mercados conquistados, além de gerar oportunidade para que cooperativas, pequenos e médios produtores participem cada vez mais do comércio internacional.
E num contexto de possível novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil, a abertura comercial do país se faz ainda mais crítica.
Segurança nacional
“O governo brasileiro desenvolve uma série de ações e programas para ampliação das exportações brasileiras de bens industriais”, afirma em nota à reportagem o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Entre as iniciativas, a pasta destaca a política industrial NIB (Nova Indústria Brasil), linhas de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e do Banco do Brasil, missões internacionais e as consultorias, prospecções e intercâmbios desenvolvidos permanentemente pela ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).
O governo federal, no âmbito do Mercosul, participou do fechamento de três acordos de livre comércio nos últimos anos: com Singapura, com a UE (União Europeia) e com o bloco europeu Efta (Associação Europeia de Livre Comércio).
O bloco sulamericano ainda mira negociações com México, Canadá, Emirados Árabes e países da América Central (como El Salvador e Panamá) e da Ásia (Índia e Japão).
A abertura comercial deixou de ser apenas uma questão de eficiência econômica e passou a ser também um tema de segurança nacional, porque envolve cadeias de suprimento, tecnologia, dados, energia, alimentos e autonomia estratégica, segundo Welber Barral, árbitro da OMC (Organização Mundial de Comércio) e ex-secretário de Comércio Exterior.
“A abertura comercial hoje precisa ser pensada junto com resiliência, diversificação e capacidade de defesa institucional. A questão não é escolher entre abrir ou proteger, mas abrir com inteligência, reduzindo dependências excessivas e preservando margem de manobra para o país”, pontua o conselheiro e sócio fundador da BMJ.
Os especialistas ouvidos pela reportagem destacam, porém, que o Brasil ainda tem de evoluir nessa frente.
Brasil entre economias mais fechadas do mundo
“O Brasil está entre as economias mais fechadas comercialmente do mundo, tanto em termos de proporções de exportações e importações no PIB, quanto de tamanho de tarifas e barreiras não-tarifárias”, afirma Otaviano Canuto, ex-Banco Mundial, FMI (Fundo Monetário Internacional) e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Com a alta de 2,3% registrada em 2025, o país encerrou o último ano com PIB de cerca de US$ 2,268 trilhões. Enquanto isso, as exportações somaram US$ 348,7 bilhões, o equivalente a 15,4% das riquezas geradas pelo Brasil no período.
“Se você se refere à diversificação do comércio bilateral, melhorou no período mais recente. Mas continua comercialmente fechada”, pontua Canuto.
Em casos de choques – como um tarifaço -, o país “não consegue realocar rapidamente suas exportações”, alerta Barral.
“Um país com maior rede de acordos teria mais capacidade de absorver o choque; no caso brasileiro, a transição tende a ser mais lenta. O efeito mais provável pode ser de pressão sobre exportações, margens e competitividade, obrigando o Brasil a acelerar diversificação, acordos e estratégias de inserção externa”, ressalta o ex-secretário de Comércio Exterior.
No contexto das medidas aplicadas pelos EUA em 2025, o governo lançou duas etapas do Plano Brasil Soberano, em que os recursos disponibilizados podem ser usados também para diversificação do destino das exportações, segundo o Mdic.
Novo tarifaço
O episódio, que parecia encerrado após, em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA decidir que são ilegais as tarifas anunciadas por Trump em 2025, voltou ao radar do governo e do setor privado esta semana com novas tarifas sinalizadas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos).
Na noite de segunda-feira (1º), o órgão norte-americano propôs a imposição de novas tarifas de 25% sobre todas as importações do Brasil, exceto para mercadorias que se enquadram como “sujeitas às tarifas de segurança nacional”, no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana – ferramenta de política comercial que permite aos EUA investigarem e retaliarem outras nações contra práticas comerciais consideradas injustas.
O USTR determinou que políticas do governo brasileiro sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes e pirataria, etanol e desmatamento ilegal geram insegurança jurídica e competição desleal aos players dos EUA.
Na noite seguinte, propôs a imposição de tarifas adicionais sobre produtos do Brasil e de outras 59 economias que teriam se omitido ao tomar medidas contra o comércio de mercadorias provenientes de trabalho forçado.
O governo se mobilizou para contestar as alegações dos EUA e articula, junto do setor privado, uma resposta aos processos movidos pelo USTR.
Em paralelo, o Executivo publicou na quarta-feira (3) uma portaria ampliando o atendimento do Plano Brasil Soberano, incluindo empresas com impacto a partir de 1% no faturamento bruto devido ao tarifaço ou à guerra no Oriente Médio.
Ainda assim, os especialistas ouvidos pela reportagem destacam a necessidade de o país continuar melhorando sua abertura comercial.
“Depois da guerra da Ucrânia e da pandemia, a gente sabe que não dá para confiar num país só. Em nenhum momento estou falando mal desse ou daquele país, mas os países estão sujeitos a pandemias, civil unrest e [guerras]”, pondera Roberto Dumas, professor de Economia do Insper e estrategista-chefe da GCB.
Além de diversificar parceiros, Dumas aponta para a necessidade de se encurtar as distâncias do comércio exterior ao olhar, por exemplo, pelo choque causado pela guerra no Oriente Médio em países que dependem de produtos que atravessam o Estreito de Ormuz.
Nesse sentido, Luis Rua afirma que o país “seguirá estratégia constante de abertura e ampliação de mercados”, inclusive, “com novos anúncios previstos para a próxima semana”.
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