Últimas

Henry Borel: entenda quando um Tribunal do Júri pode ser anulado

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Henry Borel: entenda quando um Tribunal do Júri pode ser anulado

O julgamento que resultou na condenação de Dr. Jairinho a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão e no reconhecimento da responsabilidade penal de Monique Medeiros por omissão diante das agressões sofridas por Henry Borel encerrou uma das ações penais de maior repercussão do país.

Apesar do veredito proferido pelo Conselho de Sentença após 11 dias de sessões, tanto a condenação quanto os demais pontos da sentença ainda podem ser submetidos à análise das instâncias recursais, nos limites previstos pelo Código de Processo Penal.

Isso porque a legislação brasileira admite recursos contra decisões do Tribunal do Júri em hipóteses específicas. Embora a Constituição Federal assegure a soberania dos veredictos, o resultado do julgamento pode ser submetido ao controle dos tribunais quando houver vícios processuais ou situações expressamente previstas em lei.

Quando um julgamento do Tribunal do Júri pode ser anulado

É importante primeiramente entender que o Tribunal do Júri possui proteção constitucional prevista no artigo 5º, inciso XXXVIII, da Constituição Federal. Entre as garantias asseguradas ao instituto está a chamada soberania dos veredictos, princípio segundo o qual a decisão tomada pelos jurados deve ser respeitada pelo Poder Judiciário.

Na prática, isso significa que desembargadores e ministros não podem simplesmente substituir a conclusão dos jurados por outra que considerem mais adequada.

A soberania, entretanto, não torna o julgamento imune a recursos. O próprio sistema jurídico prevê mecanismos de controle para verificar se a decisão foi produzida dentro dos limites legais e constitucionais. As hipóteses estão previstas principalmente no artigo 593, inciso III, do Código de Processo Penal.

Uma das possibilidades ocorre quando houver nulidade posterior à pronúncia, ou seja, algum vício processual relevante surgido após a decisão que encaminhou o réu ao Tribunal do Júri. Também cabe recurso quando a sentença do juiz-presidente contrariar expressamente a lei ou quando houver erro na aplicação da pena.

Outra hipótese frequentemente discutida em julgamentos de grande repercussão é a alegação de que a decisão dos jurados foi manifestamente contrária à prova dos autos.

Nesses casos, o tribunal não condena nem absolve diretamente o acusado. Se entender que existe incompatibilidade evidente entre o conjunto probatório e o veredito, pode determinar que um novo Conselho de Sentença analise novamente o caso.

O que pode ser questionado no caso Henry Borel

Tanto a defesa quanto a acusação possuem legitimidade para recorrer.

No caso de Jairinho, a defesa poderá questionar aspectos relacionados ao julgamento, ao reconhecimento das qualificadoras, à condenação pelos crimes imputados e à dosimetria da pena fixada pela magistrada.

Inclusive, Fabiano Lopes, advogado de Jarinho, disse que nunca viu um julgamento tão bizarro em toda sua vida. Após a condenação, a defesa concedeu entrevista à imprensa e afirmou que durante todos os 11 dias de júri ocorreram diversas nulidades, e portanto, “não têm dúvidas que o júri será anulado”.

Já o Ministério Público e a assistência de acusação podem apresentar recursos contra pontos do veredito que considerem juridicamente equivocados.

Uma das discussões que podem surgir envolve a situação de Monique Medeiros. Os jurados desclassificaram a imputação de homicídio doloso para homicídio culposo, reconheceram sua responsabilidade por omissão diante das agressões sofridas por Henry e, posteriormente, a juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial em relação ao homicídio culposo.

Eventuais recursos podem discutir tanto a desclassificação promovida pelo Conselho de Sentença quanto os fundamentos jurídicos adotados na sentença.

Decisão dos jurados não pode ser reformulada sem outro Tribunal

Como regra, o tribunal não pode simplesmente mudar a decisão dos jurados. A soberania dos veredictos impede que o tribunal substitua a conclusão do Conselho de Sentença por outra decisão de mérito.

Por essa razão, quando reconhece que o veredito é manifestamente contrário às provas, o tribunal normalmente determina a realização de um novo julgamento perante outro corpo de jurados.

O objetivo é preservar a competência constitucional do Tribunal do Júri para decidir questões relacionadas à autoria, materialidade e responsabilidade criminal.

Anulação não significa absolvição

Mesmo quando um recurso é acolhido e o julgamento é anulado, isso não produz automaticamente a absolvição dos acusados. Nessas situações, o efeito mais comum é a determinação de que um novo Tribunal do Júri seja realizado, com formação de outro Conselho de Sentença e repetição das etapas de julgamento.

Somente em hipóteses específicas relacionadas a nulidades processuais, questões estritamente jurídicas ou revisão da dosimetria da pena é que o tribunal pode modificar parte da sentença sem necessidade de novo júri.

Assim, embora o julgamento do caso Henry Borel tenha chegado ao fim em primeira instância, o processo ainda pode seguir para análise do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro caso sejam apresentados recursos pelas partes.

Henry Borel: entenda quando um Tribunal do Júri pode ser anulado — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado