O governo dos Estados Unidos passará a ser acionista da USA Rare Earth, empresa americana que anunciou a compra da mineradora brasileira Serra Verde, em uma das maiores operações recentes envolvendo terras raras no mundo.
A entrada do governo americano no capital da companhia faz parte de um pacote bilionário fechado entre a USA Rare Earth e o Departamento de Comércio dos EUA e anunciado nesta quarta-feira (3). O acordo libera acesso a até US$ 1,6 bilhão para a construção de uma cadeia integrada de terras raras, metais, ligas e ímãs nos Estados Unidos.
Pelos termos anunciados pela companhia, a USA Rare Earth emitirá ao Departamento de Comércio americano 16,1 milhões de ações ordinárias e cerca de 17,6 milhões de warrants, instrumentos que dão direito à compra de ações no futuro.
Na prática, o governo dos EUA não será apenas financiador da empresa.
Passará também a ter exposição direta ao desempenho da companhia, em um movimento que reforça a estratégia de Washington de apoiar empresas consideradas centrais para reduzir a dependência americana de cadeias dominadas pela China.
A USA Rare Earth anunciou, em abril, a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. A operação envolve a mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás, um dos poucos projetos em operação comercial no mundo fora da Ásia com produção de terras raras pesadas, grupo de elementos usado em setores como defesa, energia, veículos elétricos, semicondutores e equipamentos de alta tecnologia.
A transação ainda depende de aprovações regulatórias e de acionistas para ser concluída.
Mas, se confirmada, colocará um ativo brasileiro considerado estratégico dentro de uma empresa que terá participação direta do governo dos Estados Unidos.
O caso ocorre em meio à corrida global por minerais críticos. Países como Estados Unidos, China, Austrália, Canadá e membros da União Europeia têm ampliado políticas industriais, financiamento público e instrumentos de controle sobre cadeias de suprimento consideradas sensíveis.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia. Entre eles estão o neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio, fundamentais para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses ímãs são aplicados em turbinas eólicas, veículos elétricos, data centers, sistemas de defesa, equipamentos médicos, satélites e semicondutores.
A China ainda domina boa parte da cadeia global de terras raras, especialmente nas etapas de separação, processamento e produção de ímãs.
Por isso, os Estados Unidos têm buscado acelerar projetos capazes de criar uma cadeia doméstica de “mina ao ímã”, expressão usada pelo setor para descrever a integração entre mineração, separação química, metalurgia, produção de ligas e fabricação de ímãs.
No comunicado, a USA Rare Earth afirma que os acordos definitivos com o Departamento de Comércio dão acesso a até US$ 277 milhões em financiamento federal e até US$ 1,3 bilhão em empréstimos garantidos no âmbito do programa CHIPS, criado para fortalecer a indústria americana de semicondutores.
A inclusão de terras raras no pacote ligado ao CHIPS mostra que o governo americano passou a tratar minerais críticos como parte da infraestrutura necessária para a produção tecnológica e industrial do país.
Além da Serra Verde, a USA Rare Earth desenvolve o projeto Round Top, no Texas, voltado à produção de terras raras pesadas e outros minerais críticos.
A companhia também pretende ampliar a fabricação de ímãs de neodímio-ferro-boro nos Estados Unidos, com meta de chegar a 10 mil toneladas por ano.
Para especialistas do setor mineral, a operação envolvendo a Serra Verde reforça o peso estratégico do Brasil na nova geopolítica dos minerais críticos. O país possui reservas relevantes de terras raras, nióbio, lítio, grafite, níquel, cobre e outros minerais ligados à transição energética e à indústria de defesa.
O desafio brasileiro, no entanto, ainda é avançar para além da mineração.
Hoje, boa parte dos projetos nacionais está em fase inicial de pesquisa, licenciamento, testes metalúrgicos ou estruturação financeira. A produção de óxidos separados, metais, ligas e ímãs ainda depende de investimentos elevados, tecnologia e contratos de longo prazo com compradores industriais.
A entrada do governo americano no capital da controladora da Serra Verde também deve ampliar o debate no Brasil sobre soberania mineral, atração de investimentos estrangeiros e agregação de valor no território nacional.
No Congresso, já tramita uma proposta para criar uma política nacional de minerais críticos e estratégicos.
O texto aprovado pela Câmara prevê mecanismos de estímulo ao beneficiamento, à transformação mineral, à inovação e à industrialização no país, mas parte relevante das regras ainda dependerá de regulamentação pelo governo federal. O texto está agora em análise no Senado.
Nos bastidores, integrantes do setor mineral avaliam que o Brasil vive uma janela de oportunidade, mas ainda corre o risco de ocupar apenas a primeira etapa da cadeia global: a de fornecedor de matéria-prima para polos industriais estruturados no exterior.
O movimento americano evidencia esse contraste.
Enquanto Washington mobiliza capital público, financiamento, participação acionária e instrumentos de política industrial para formar uma cadeia completa de terras raras, o Brasil ainda discute como transformar seu potencial geológico em capacidade industrial efetiva.
A Serra Verde é considerada um dos ativos mais avançados do país nesse setor. A empresa produz concentrado de terras raras a partir de argilas iônicas.
A operação entre USA Rare Earth e Serra Verde, portanto, vai além de uma aquisição privada.
Ela conecta diretamente um ativo mineral brasileiro à estratégia industrial e de segurança nacional dos Estados Unidos.
Para o Brasil, o caso tende a aumentar a pressão por uma política mais clara para minerais críticos, com foco não apenas em atrair capital estrangeiro, mas também em garantir que parte maior da cadeia — processamento, separação, tecnologia e indústria — seja desenvolvida no país.

