A utilização da carne bovina brasileira como um dos principais exemplos da investigação sobre trabalho forçado aberta pelos Estados Unidos não gerou preocupação imediata entre exportadores do setor.
A apuração conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) sugere a aplicação de sobretaxas no caso de trabalho forçado em cadeias produtivas de países investigados, que vão de 10% a 12,5%. Mas a carne bovina brasileira ficou de fora também dessa lista de produtos dos 60 países investigados.
Para o setor, essa exclusão demonstra a importância do produto brasileiro para a indústria de alimentos dos EUA, que hoje vivencia uma redução de rebanho histórica e precisa importar carne.
Exportadores ouvidos pela CNN em condição de reserva avaliam que eventuais restrições comerciais contra o produto teriam potencial para elevar custos da indústria americana e pressionar os preços ao consumidor nos Estados Unidos.
A leitura é que a proposta possui forte componente político e faz parte de um movimento mais amplo para tentar conter o avanço da competitividade do agronegócio brasileiro em mercados internacionais, como a China, onde o Brasil colocou a maior parte das exportações mundiais no ano passado.
Apesar das críticas, praticamente toda a cadeia da carne bovina ficou de fora da lista de produtos que poderiam ser atingidos pelas medidas propostas pelo governo americano, com o novo tarifaço de 25%.
O anexo de exceções inclui cortes frescos, refrigerados e congelados, carnes com e sem osso, miúdos bovinos e diversos produtos processados.
Na avaliação de fontes ligadas às exportações, a decisão está diretamente relacionada à situação da pecuária americana.
Os Estados Unidos atravessam um período de redução do rebanho bovino, que atingiu os menores níveis em décadas, enquanto a demanda doméstica permanece elevada.
Nesse contexto, a carne brasileira desempenha papel relevante na indústria de processamento americana.
Segundo integrantes do setor, parte importante do produto exportado pelo Brasil é utilizada para compor misturas destinadas à produção de carne moída e hambúrgueres, já que a carne brasileira é mais magra e ajuda a equilibrar a gordura da matéria-prima produzida localmente.
Na visão de exportadores, uma eventual restrição à carne brasileira teria impacto direto sobre os custos da indústria americana e poderia agravar pressões já existentes sobre os preços ao consumidor.
A interpretação é que a exclusão da proteína animal demonstra que o governo americano reconhece a importância do produto para o abastecimento interno.
Representantes da cadeia exportadora também contestam a ideia de que restrições às exportações brasileiras resultariam em maior oferta de carne no mercado doméstico. A explicação é que a exportação ajuda a sustentar economicamente o volume de abates realizados pelos frigoríficos.
A avaliação de exportadores é que a competitividade brasileira decorre principalmente de fatores estruturais, como disponibilidade de terras, produção de grãos, escala produtiva e custos mais baixos em comparação a concorrentes internacionais.
Por isso, interlocutores do setor afirmam que eventuais medidas comerciais dificilmente alterariam a posição do Brasil como maior exportador mundial de carne bovina.
Nos bastidores, a percepção é que a investigação americana deve ser acompanhada de perto, mas sem alarmismo. O entendimento é que ainda há espaço para negociação e que o histórico recente mostra que propostas anunciadas pelo governo americano podem sofrer alterações antes da implementação.
A investigação conduzida pelo USTR e as medidas comerciais propostas pelo governo americano ainda estão em consulta pública. Uma nova reunião está marcada para o dia 6 de julho e a data oficial para vigência do que consta no relatório é 15 de julho.
Para o setor exportador, porém, a exclusão da carne bovina da lista de produtos potencialmente atingidos reforça a avaliação de que os impactos práticos para a proteína brasileira tendem a ser limitados no curto prazo.

