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Cerca de 72% dos brasileiros trabalham em modo de sobrevivência, diz estudo

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 4 horas)
Cerca de 72% dos brasileiros trabalham em modo de sobrevivência, diz estudo

O trabalhador brasileiro atingiu um ponto de esgotamento crítico sob a perspectiva da saúde mental corporativa: a perda da capacidade de descansar.

Um estudo inédito realizado pela edtech de saúde mental Starbem revelou que 72% da população pesquisada opera hoje no chamado “modo de sobrevivência”, o que corresponde aos níveis mais altos (4 e 5) de uma escala de tensão aguda.

Como esgotamento no trabalho afeta a sua vida

De acordo com o estudo, o esgotamento deixou de ser uma condição passageira e se transformou em uma resposta biológica de resposta ou fuga, afetando diretamente o córtex pré-frontal — região do cérebro responsável pelo raciocínio estratégico, planejamento e empatia.

O levantamento acompanhou 1.868 participantes da base ativa de usuários da startup em tratamento ao longo de seis meses.

Quando desligamos?

Entre as diferentes consequências atreladas ao colapso do descanso, destaca-se uma crise severa do sono: 58% dos entrevistados relatam dormir mal ou péssimo, enquanto apenas 13% classificam seu sono como bom ou excelente.

Os especialistas envolvidos sugerem que, para cada ponto a mais no índice de tensão, a qualidade do sono despenca 40%. A média nacional de incapacidade de controlar preocupações atingiu 3,82 em uma escala de 5.

Diante dos números, é possível assegurar, segundo a doutora em psicologia Ticiana Paiva, que o estado de alerta permanente já foi assimilado pela rotina e transformou profundamente as relações sociais e familiares no país.

“O dado mais preocupante do estudo talvez não seja que 72% dos brasileiros estejam em ‘modo de sobrevivência’, mas que muitos já não percebam isso como um problema. O estado de alerta, que biologicamente deveria ser acionado apenas em emergências, tornou-se o modo padrão de funcionamento”, explica a especialista, que também atua como head de psicologia da Starbem.

Ainda de acordo com a especialista, o conceito de tempo livre foi distorcido. “Descansar deixou de significar recuperação. Muitas pessoas saem do trabalho, mas não saem do estado de vigilância. Nas famílias, isso gera um fenômeno silencioso: a presença física sem presença emocional. O alerta permanente não está apenas roubando o descanso dos brasileiros; está reduzindo sua capacidade de se conectar com quem mais importa”.

Cultura de alerta permanente

A análise indica que a crise superou os resquícios da pandemia de Covid-19, consolidando-se como um traço cultural estrutural. “Mais do que um problema clínico individual, o que emerge é uma cultura do alerta permanente. A lógica da hiperconectividade, da disponibilidade constante e da alta performance contínua parece ter transformado a ansiedade em modo padrão de operação”, aponta a psicóloga.

Paradoxo da produtividade

A pesquisa também joga luz sobre um “efeito rebote” no ambiente corporativo: a ansiedade crônica chega a triplicar o tempo necessário para a execução de tarefas simples devido ao fenômeno da névoa mental (brain fog, em inglês). Em outras palavras, o modelo atual de cobrança das empresas tem destruído a própria eficiência do negócio.

“Nunca o Brasil esteve tão focado em performance, mas nunca esteve tão exausto. O problema é que muitas organizações ainda tratam pressão como sinônimo de produtividade. Na prática, acontece o contrário”, afirma Ticiana Paiva.

De acordo com o relatório, o maior ralo financeiro e operacional para as empresas hoje não é a ausência causada pelas faltas dos funcionários, mas sim o presenteísmo. “São profissionais que comparecem ao trabalho todos os dias, mas operam muito abaixo de sua capacidade real. Isso cria um efeito rebote claro: quanto mais se exige de um cérebro esgotado, menos ele consegue entregar.”

Reabilitação cognitiva

Apesar do cenário alarmante, o estudo demonstrou que o suporte psicológico adequado é capaz de reverter o quadro de esgotamento profissional de forma rápida. Após o período de acompanhamento clínico, o nível de foco dos participantes saltou 105% (subindo de 2,1 para 4,3 pontos), enquanto a motivação disparou 173% (saltando de 30% para 82%).

O relatório conclui que o primeiro passo para reverter a crise não é o treinamento de eficiência, mas restabelecer a capacidade biológica de recuperação do indivíduo.

“O primeiro passo não é ensinar produtividade, mas restaurar a capacidade biológica de recuperação. Para os indivíduos, isso significa proteger o sono, estabelecer limites digitais e reconhecer que descanso não é luxo, mas necessidade fisiológica. Para as empresas, o primeiro passo é abandonar a ideia de que saúde mental é apenas uma ação de bem-estar. Os dados mostram que ela é uma estratégia de desempenho. O cérebro humano foi feito para enfrentar emergências. O problema é que transformamos a emergência em estilo de vida”, finaliza a head de psicologia.

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