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Transição energética: será que agora vai?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

No início de 2020, um de nós escreveu que a transição energética era um caminho inexorável, irreversível, irretratável e irrevogável. Já o outro, em 2021, escreveu que, embora talvez exigindo um pedágio, a estrada para a descarbonização era de percurso obrigatório.  

 À época, a grande dúvida não era se a transição aconteceria, mas em que velocidade. Na esteira da famosa carta de comprometimento com a sustentabilidade e meio ambiente escrita por Larry Fink, CEO da Black Rock, a maior empresa de gestão de ativos do mundo, defendendo financiamentos em energia renovável e a necessidade de reduzir os investimentos em combustíveis fósseis, demonstrou ser o grande Momentum, um divisor de águas para a transição energética.   

Soma-se a isso, o movimento das maiores empresas de energia do mundo, inclusive as tradicionalmente ligadas ao petróleo, que anunciavam planos de diversificação, investimentos em energia limpa e metas para reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis. Parecia que uma nova era energética se consolidaria rapidamente. Uma NOVA ORDEM ENERGÉTICA MUNDIAL! 

Mas a história mostrou que a realidade é mais complexa. Bastaram mudanças na oferta e demanda dos combustíveis fósseis, na volatilidade dos preços da energia e na intensificação de conflitos geopolíticos — como a guerra entre Rússia e Ucrânia — para que parte daquele entusiasmo ficasse no passado.  

Hoje, muita coisa mudou. Porém, outras permanecem profundamente iguais. A energia renovável superou barreiras fundamentais: recursos, tecnologia, escala, custos, preços e competitividade. Tornou-se madura, eficiente e indispensável. Em muitos mercados, o preço de custo das renováveis praticamente desapareceu. Em diversas regiões do mundo, solar e eólica já são as fontes mais baratas de expansão da oferta elétrica e as que mais crescem ano a ano.  

No entanto, ainda não houve uma mudança estrutural definitiva na relação entre energia renovável e combustíveis fósseis. A razão é simples, embora desconfortável: a transição energética ainda não venceu plenamente a barreira dos preços, uma vez que não conseguiu superar a da taxa de retorno dos combustíveis fósseis em nenhuma região produtora.  

Hoje, 25% do mundo produz petróleo, enquanto os demais 75% são dependentes desses fornecedores. No caso da energia renovável, 75% do mundo tem recurso e tecnologia para produzir com razoável abundância essa energia, o que torna competitiva a sua produção e consumo.   

Dada a diferença técnica entre esses dois bens e portanto, de seu desenho de mercado, há fortes indícios, de que tal barreira só será vencida se houver uma política pública clara em nível de governança global que seja capaz de regular a força deste modelo oligopolista, com viés de monopólio.

Uma política pública que estabeleça sinais claros, adequados e estáveis do ponto de vista econômico e regulatório. Tal medida se passa necessariamente pela precificação do carbono. Embora não seja a única medida para resolver esse problema, uma regulação que traga neste mercado, o bom e velho sinal de preços, continua sendo o principal vetor de mudança. A humanidade se sensibiliza e se transforma por valores, sim, isto é um fato da natureza. Mas, se move com velocidade por razões econômicas, o que na sociedade capitalista é um fato inevitável. 

Ao mesmo tempo, começa a emergir uma nova dimensão dessa transformação energética: a revolução da eletrificação das economias. Transportes, indústrias, edifícios e outros processos, antes altamente dependentes de combustíveis fósseis, passam gradualmente a migrarem suas operações para a eletricidade. E isso muda profundamente a lógica do sistema energético global.  

Porém, produzir apenas a energia limpa não basta para transformar. A transição exigirá investimentos complementares massivos em infraestrutura, especialmente em redes de transmissão, modernização dos sistemas elétricos, digitalização, flexibilidade operacional e armazenamento de energia (BESS).  

Na prática, a nova economia energética passa a se apoiar em uma tríade fundamental: eletrificação de processos, armazenamento de energia e linhas de transmissão. A eletrificação amplia o uso da energia elétrica em setores antes dependentes de combustíveis fósseis. O armazenamento garante flexibilidade, estabilidade e segurança ao sistema. E as linhas de transmissão tornam possível integrar geração, consumo e diferentes fontes renováveis em larga escala.  

As baterias passam a ocupar um papel central nesse processo. Elas deixam de ser apenas uma solução tecnológica complementar e tornam-se elemento estratégico para garantir estabilidade, segurança energética e integração eficiente de fontes intermitentes, como solar e eólica.  

Da mesma forma, a expansão e modernização das redes de transmissão tornam-se decisivas. Em muitos países — inclusive no Brasil — a limitação já não está apenas na capacidade de gerar energia renovável, mas na capacidade de transportá-la, integrá-la e distribuí-la de maneira eficiente. A variância na disposição de recursos naturais ao longo do dia e do ano, como a do vento e do sol, não será resolvida apenas pela geração, mas pela gestão inteligente do sistema como um todo.  

Nesse contexto, a transição energética não pode ser tratada unicamente como agenda ambiental. Ela é também uma questão de soberania energética, soberania econômica, segurança nacional, competitividade industrial e reposicionamento geopolítico. O mundo precisa se descarbonizar. Mas os países também precisam crescer, gerar empregos, garantir energia segura e preservar sua autonomia estratégica.

Por isso, talvez a pergunta “agora vai?” precise ser substituída por outra: quais condições econômicas, políticas, tecnológicas e institucionais serão necessárias para que a transição energética aconteça de fato — e na velocidade que o planeta exige? Porque, ao que tudo indica, a grande disputa energética do século XXI já não será apenas sobre quem produz energia. Será sobre quem consegue eletrificar, armazenar, transmitir, integrar e controlar os sistemas energéticos do futuro.  

* Elbia Gannoum é presidente-executiva da Abeeólica, vice-chair do GWEC (Global Wind Energy Council), Enviada Especial de Energia da COP 30 e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do Governo Federal. 

* Otaviano Canuto foi vice-presidente e diretor-executivo no Banco Mundial, diretor-executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp.

 

  

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