O cotidiano da guerra na Ucrânia é marcado por uma combinação intensa de luto, cansaço e determinação. O correspondente e analista sênior de Internacional da CNN Américo Martins descreveu como a população ucraniana tem enfrentado os efeitos devastadores do conflito, que já se estende por anos e continua a ceifar vidas civis.
Segundo o analista, a grande maioria dos ucranianos com quem ele conversou demonstra vontade de continuar resistindo, mas reconhece as dificuldades do momento. “Eles estão cansados, eles estão frustrados, mas eles não veem também uma saída no curto prazo”, relatou o correspondente. “Eles não querem entregar os territórios que os ocupam. Eles sabem, na verdade, que é difícil retomar aqueles territórios.”
Ataques a civis e o peso do luto
Américo esteve no local de um ataque de míssil em Kiev que matou 24 pessoas num mesmo prédio. O correspondente descreveu uma cena de comoção coletiva: vizinhos, idosos e crianças levando flores ao local, com brinquedos e ursinhos de pelúcia depositados em homenagem às vítimas, entre elas crianças de 8, 9 e 10 anos.
“Você vê uma determinação da comunidade em tentar honrar e não esquecer dessas pessoas, e você vê no fundo dos olhos delas o cansaço”, afirmou.
O correspondente também destacou que os mais vulneráveis são os que mais sofrem com o conflito. As áreas suburbanas, menos protegidas por sistemas de defesa antiaérea, são as mais atingidas pelos bombardeios. “O centro de Kiev tem uma super defesa antiaérea, inclusive mais perto dos prédios do governo. Não é a mesma coisa, não é tão eficiente no subúrbio da cidade, as áreas mais pobres”, explicou Américo.
Além disso, são os mais pobres que acabam sendo recrutados para lutar na linha de frente, muitas vezes sem alternativas. “São os que foram recrutados praticamente à força, que não conseguiram subornar alguém, porque infelizmente a corrupção é enorme na Ucrânia e também na Rússia”, disse.
Do otimismo de 2023 ao cansaço e ao nacionalismo
Américo Martins descreveu uma mudança significativa no clima emocional do país ao longo de suas três visitas. Em 2023, no início do verão europeu, havia um otimismo generalizado. Os ucranianos haviam repelido os principais ataques russos do início da guerra, incluindo batalhas em Bucha e Hostomel, e acreditavam que conseguiriam expulsar as forças russas de boa parte do território.
“Era um sentimento que passava para o país inteiro”, relatou. Naquele momento, o analista entrevistou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que se mostrava confiante: “Vamos conseguir expulsar os russos, a OTAN está com a gente, a União Europeia está com a gente.”
Em 2024, o cenário havia mudado. A tentativa de contraofensiva ucraniana não produziu avanços expressivos, e o temor do avanço russo se tornara latente. “Era um sentimento de cansaço”, descreveu o correspondente.
Numa segunda entrevista com Zelensky naquele ano, Américo notou uma diferença marcante: “Me parecia cansado, parecia abatido, embora se mostrasse determinado. Mas ele, visivelmente, estava mais cansado do que no início.”
Na visita mais recente, o correspondente observou o surgimento de um ultranacionalismo crescente. A Ucrânia aprovou leis para eliminar o que considera o “legado colonial e comunista” do país, e a população demonstra cada vez mais resistência à ideia de negociar um acordo que implique perda territorial.
“Eles querem continuar lutando, porque eles acham que negociar neste momento seria bom, porque acabaria com a guerra, mas representaria uma derrota, porque eles iriam perder 20% do território”, explicou o correspondente.
O sentimento ucraniano em relação à Rússia
Questionado sobre como os ucranianos enxergam a Rússia e o presidente Vladimir Putin, o analista foi direto: “Putin é odiado na Ucrânia. Pouca gente vai se dispor a defender o Putin ou dizer que ele tem algum tipo de razão ou algum tipo de justificativa para o que ele está fazendo.”
O correspondente ressaltou, no entanto, que existe entre parte dos mais velhos um sentimento de nostalgia em relação à União Soviética, associado à estabilidade econômica daquele período, embora reconheça que o sistema era altamente restritivo.
Américo Martins também mencionou que o temor de uma eventual dominação russa é compartilhado por outros países da região, especialmente os países bálticos — Estônia, Letônia e Lituânia —, que fazem parte da OTAN e da União Europeia, mas se mostram apreensivos diante das ações militares russas.
“A gente tem um ressurgimento do nacionalismo ucraniano”, concluiu o correspondente, ponderando que, de forma geral, nacionalismos exacerbados na Europa historicamente levaram a consequências graves.

