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Entenda: Brasil importa leite em pó, mas é um dos gigantes em lácteos

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Entenda: Brasil importa leite em pó, mas é um dos gigantes em lácteos

A decisão do governo federal de suspender a aplicação de medidas antidumping contra produtos vindos da Argentina e do Uruguai, na última quinta-feira (27/5), jogou luz sobre uma discussão presente no setor há mais de 30 anos: a importação de leite em pó.

Isso porque o Brasil produz uma média de 35 bilhões de litros de leite por ano. Entre os membros do Mercosul, lidera, de longe, a produção de volume de lácteos, mas convive com um descontentamento da cadeia leiteira em razão de contínuas importações do leite em pó de Argentina e Uruguai.

As compras do produto industrializado acontecem desde a década de 1990, segundo o MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) e, historicamente, se consolidaram devido aos preços mais competitivos das nações vizinhas.

O apetite das indústrias brasileiras, que usam o produto para fabricar iogurtes, bebidas lácteas, cream cheese mais baratos, também mantiveram as importações em alta nos últimos anos.

Neste contexto, a suspensão das tarifas antidumping desagradou produtores brasileiros e entidades setoriais, como a Associação Brasileira de Criadores de Girolando, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), que reclamam dos impactos das compras externas sobre os preços pagos no mercado interno.

O governo teme reflexos negativos na economia. Na prática, o impasse coloca em lados opostos produtores rurais e parte da indústria.

Enquanto os pecuaristas defendem mecanismos de proteção para garantir renda e competitividade, empresas argumentam que as importações ajudam a equilibrar a oferta, reduzir custos de produção e evitar aumentos ao consumidor.

Afinal, por que o Brasil importa leite se produz volume suficiente para o mercado doméstico?

A resposta envolve fatores econômicos, logísticos e comerciais.

Embora esteja entre os maiores produtores globais de leite, o Brasil nem sempre consegue atender toda a demanda da indústria com preços competitivos, conforme apurou a reportagem.

Em determinados momentos, o leite em pó produzido na Argentina e no Uruguai chega ao mercado brasileiro com valores mais baixos do que os praticados internamente devido a subsídios, como isenção de taxas.

Os três países fazem parte do Mercosul, bloco que permite o livre comércio sem cobrança de tarifas de importação.

A proximidade geográfica reduz custos de transporte, enquanto as condições de produção nos países vizinhos frequentemente garantem maior competitividade.

Diante do cenário, a entrada de um volume crescente de leite em pó no Brasil, tem feito alguns produtores a desistir ou diminuir investimentos da atividade, segundo a Alexandre Lacerda, presidente da Girolando.

De acordo com dados do Secex, entre 2023 e 2025 as importações brasileiras cresceram 66%, para 2,2 bilhões de litros de leite adquiridos em 2025. Só nos primeiros meses de 2026 as importações de leite em pó já superaram os 320 milhões de litros.

Este aumento contribuiu para o agravamento da situação diante do aumento dos custos da operação da cadeia leiteira: ração animal e insumos encareceram, efeitos da guerra no Oriente Médio e aos preços pagos ao produtor de leite, que até subiram, mas não o suficiente.

De acordo com o Cepea, o preço pago ao produtor de leite fechou abril em R$ 2,66 por litro, quarta alta consecutiva em relação ao mês de janeiro, quando o preço ficou em R$ 2,01 por litro.

Entretanto, esta alta decorre de menor oferta e forte concorrência entre os laticínios, de acordo com a entidade.

Estoque para indústria

O leite em pó também funciona como uma espécie de “estoque estratégico” para a indústria.

O produto possui maior prazo de validade e pode ser utilizado na fabricação de diversos derivados, como bebidas lácteas, iogurtes, queijos processados e reconstituição de leite fluido.

Do lado dos produtores brasileiros, porém, a avaliação é diferente. Entidades do setor argumentam que o aumento das importações pressiona os preços pagos ao pecuarista justamente em momentos de maior oferta interna.

Segundo representantes da cadeia leiteira, isso reduz a rentabilidade da atividade e dificulta a recuperação dos investimentos realizados nas propriedades.

Alexandre Lacerda destacou à reportagem que os desafios estão acirrando a pecuária leiteira no Brasil e desmotivando os produtores. A importação de leite em pó é uma das piores pressões, segundo ele.

“O setor de leite vem sofrendo e pleiteando por soluções há bastante tempo. São necessárias tarifas sobre o leite tanto da Argentina, quanto do Uruguai para preservar o mercado doméstico, que vai enfrentando dificuldades de crédito, de juro alto e, mais recentemente, a aprovação da jornada 6X1, que aumenta o custo de operação do setor”, afirmou.

A CNA ( Confederação Nacional da Agricultura) continuará trabalhando junto ao governo para demonstrar que a adoção das medidas antidumping não afetará negativamente a economia do País, além de contribuir para a sobrevivência de quase 1 milhão de produtores brasileiros que, segundo a entidade, enfrentam concorrência desleal.

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