Uma formação geológica rara, criada após o impacto de um asteroide há cerca de 100 milhões de anos atrás, se tornou um objeto de estudo importante para pesquisadores que buscam compreender melhor as futuras missões espaciais e a permanência dos humanos na Lua e em Marte.
Mas em qual lugar essa cratera está? Ela está localizada em Domo de Vargeão, em Vargeão, no oeste de Santa Catarina.
Foi nessa pequena cidade de 3 mil habitantes que essa rocha, que possui um material raro chamado basalto, foi encontrada e estudada pelo geólogo Álvaro Penteado Crosta, formado pela USP (Universidade de São Paulo) enquanto ele iniciava seus estudos em um mestrado sobre geologia em 1970, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Segundo Crosta, esse tipo de substância é análoga ao material dominante nas superfícies da Lua e do planeta vermelho. Ao estudar essas localizações terrestres, os pesquisadores podem simular esses ambientes, desenvolver substitutos do solo lunar e testar equipamentos robóticos de perfuração para futuras missões espaciais. É como se houvesse a preparação de missões sem o alto custo e risco das viagens ao satélite.
“Para estudar crateras de impacto em rocha basáltica e tentar estudar a evolução dos planetas através disso, a gente pode acessar, então, os análogos aqui na Terra. Então, a cratera de Varjão é justamente um desses análogos. Então, essas crateras basálticas brasileiras são tidas como bastante importantes no estudo de análogos planetários”, explica.
Álvaro Crosta, geólogo e pesquisador
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Mas como que essa formação auxiliaria a ida do homem à Lua?
O pesquisador explica: “Porque é muito difícil chegar diretamente da Terra até Marte. Então uma das ideias da base lunar é justamente servir de um ponto de parada e de abastecimento de combustível para ir até Marte. Bom, esse combustível sairia de onde? Sairia, por exemplo, de hidrogênio, de hélio, que são elementos químicos que são encontrados nessas rochas. E para a gente testar tudo isso, a gente pode usar material facilmente coletável aqui nessas crateras da Terra”.
Álvaro também conta que, pesquisadores italianos e até cientistas da Nasa (Agência Espacial Americana) planejam testar equipamentos de sondagem, formados para coletar dados científicos, que serão levados no futuro para missões em Marte, tudo isso a partir desta cratera localizada no sul do Brasil.
“A gente está vendo ainda. Por quê? Quando você manda uma missão dessa para Marte, atualmente são missões robóticas. Então, os equipamentos são muito pequenos. Eles têm que ser pequenos por um problema de peso. E eles têm que funcionar remotamente, tudo controlado por robô. Então, é claro que eles têm que testar em condições semelhantes aqui na Terra”, explicou.
Ele também diz que a testagem desses protótipos aqui no Brasil ajudam a determinar quanta energia é necessária para a perfuração, até que profundidade as sondas possam penetrar e identificar se o equipamento suporta o estresse físico da rocha.
Ou seja, eles coletam materiais das cratera para reproduzir o regolito lunar, a base da lua. Isso permite que o ambiente seja estudado e veja como materiais e humanos interagiriam nesse solo.
Outra aplicação envolve o estudo dessas crateras para entender como extrair elementos químicos, como hidrogênio e hélio, que podem virar uma fonte de combustível extraída da Lua e de Marte.
“Então, esses testes são feitos, todos aqui na Terra, são testes muito exaustivos, muito intensivos. Então, pegaria um protótipo do equipamento, levaria a Terra para performar o teste no local, e fazer o teste necessário para que ele funcione depois em Marte”
Álvaro Crosta, geólogo e pesquisador
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E como aconteceu a formação dessa cratera no Brasil?
A formação da cratera no Brasil, especificamente a de Varjão, ocorreu através de um evento catastrófico que seguiu de diversas etapas.
Inicialmente, um asteroide de grande porte, com dimensões entre dezenas e centenas de metros, entrou em rota de colisão com a Terra. Embora a atmosfera funcione como um escudo para objetos menores, ela não conseguiu deter um corpo desse tamanho, provocando apenas uma leve frenagem.
O asteroide atingiu a superfície terrestre a uma velocidade impressionante de até 60 mil quilômetros por hora. No momento do impacto, foi liberada uma energia equivalente a milhões de bombas atômicas, causando transformações permanentes nas rochas locais.

Essa energia gerou um buraco com vários quilômetros de largura. No caso específico de Varjão, a profundidade chegou a quase um quilômetro. O impacto lançou fragmentos de rocha para fora da cratera e gerou terremotos de altíssima intensidade, eliminando todas as formas de vida e estruturas na região imediata.
Estima-se que esse evento tenha ocorrido entre 100 e 120 milhões de anos atrás. Desde então, a erosão foi suavizando as bordas e o relevo da cratera, tornando-a uma cicatriz geológica mais sutil na topografia atual do que era originalmente.
Cratera gerou desenvolvimento econômico envolvendo turismo e educação em Varjão
Segundo o pesquisador, a prefeitura de Varjão está criando um museu dedicado à cratera, com o objetivo de atrair visitantes e movimentar o turismo na cidade. Além disso, a rocha faz parte de um circuito turístico que reúne atrações de vários municípios pequenos da região, incentivando as pessoas a conhecerem a localidade.
O museu contará com tecnologia avançada de visualização 3D e realidade virtual. Isso permitirá que os moradores não apenas aprendam sobre a ciência, mas tenham uma experiência imersiva de como a formação da cratera ocorreu.
Deve ser inaugurada esse ano, vai contar com tecnologia muito avançada de visualização 3D em realidade virtual, coisas desse tipo, para as pessoas não apenas verem como se formou a cratera, mas sentirem como se formou a cratera, através de uma imersão em realidade virtual.
Álvaro Crosta, geólogo e pesquisador
Além disso, o fenômeno é contado como uma herança natural e atrai expedições de cientistas internacionais.
“Normalmente, é um ônibus com 30, 40 cientistas de vários países do mundo. A gente já fez isso
algumas vezes. E somos sempre muito bem recebidos pelos cidadãos locais. E a gente tem feito isso sempre que possível. Então, esse interesse é sempre permanente, digamos. Sempre tem algum local do mundo tratando disso”, concluiu.

*Sob supervisão de Thiago Félix

