“Robô não sangra” — essa é a expressão que resume, segundo o analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins, a lógica que passou a dominar o campo de batalha na guerra entre Ucrânia e Rússia.
Em relato sobre o que observou na linha de frente, Américo descreveu um conflito cada vez mais marcado pelo uso de drones, robôs terrestres, internet via satélite e análise massiva de dados.
Robôs e drones substituem soldados nas tarefas mais perigosas
Os robôs utilizados no conflito não são figuras humanoides, mas sim pequenos veículos terrestres controlados à distância — descritos por Américo como “pequenos tanquezinhos”.
Apesar do aspecto simples, são equipados com metralhadoras, disparam bombas e têm capacidade de resgatar soldados feridos e transportar mantimentos até a linha de frente.
“Robô não sangra”, afirmou Martins, sintetizando o princípio que orienta o uso crescente dessas máquinas no conflito.
A lógica é clara: enviar equipamentos no lugar de soldados reduz as baixas humanas em zonas de altíssimo risco.
Os drones, por sua vez, já demonstraram seu impacto desde os primeiros momentos da guerra.
O analista lembrou que, no início do conflito, colunas de tanques russos que avançavam em direção a Kiev foram barradas por drones equipados com explosivos improvisados.
Diante disso, os russos passaram a interferir eletronicamente na comunicação dos aparelhos.
A resposta ucraniana foi inovar: drones passaram a ser conectados por bobinas de fibra ótica de até 20km, tornando a interferência impossível.
“Não tem como você interferir na comunicação de um drone desse”, explicou Américo.
A “Killzone”: faixa de terra onde qualquer movimento pode ser fatal
A linha de frente atual é definida por uma faixa de aproximadamente 20km de cada lado da chamada linha de contato, monitorada ininterruptamente por drones.
Essa área ficou conhecida como Killzone — uma terra de ninguém onde, segundo Martins, “qualquer coisa que se mexe ali, morre”.
O uso constante de drones também tornou as trincheiras obsoletas: “a trincheira não tem mais sentido, você tem o drone voando em cima dela”, explicou Américo.
Ele destacou que, em 2023, quando esteve na Ucrânia, ainda era possível ver muitas trincheiras, em um cenário que remetia à Primeira Guerra Mundial — algo que desapareceu com a evolução tecnológica do conflito.
Os soldados posicionados nas tocas e posições avançadas chegam a ficar meses confinados, sob bombardeios constantes, sem poder se mover.
É nesse contexto que os robôs terrestres se tornam essenciais para levar comida, água e armamento até esses combatentes.
Américo também relatou o depoimento de um soldado brasileiro que luta pelo lado ucraniano, segundo o qual, quando os russos identificam uma posição desguarnecida, o avanço é avassalador.
“Parece o filme do Mad Max. Vem tudo — tanque, triciclo, moto, o que tiver para tentar avançar alguns quilômetros naquela fronteira”, descreveu.
Inteligência artificial e análise de dados entram na equação
Outro aspecto central relatado por Américo é o uso intensivo de dados.
Por se tratar de uma guerra travada na Europa, com amplo acesso à internet, tudo é filmado e registrado.
A Ucrânia conta com um grande número de analistas dedicados a processar essas informações e aplicá-las na chamada “guerra robótica”.
Com o auxílio de inteligência artificial, é possível identificar padrões de comportamento dos soldados inimigos e determinar a melhor forma de atacar com drones.
“É uma guerra, por um lado, muito tecnológica, por outro lado, estupidamente violenta”, concluiu Américo Martins.

