O avanço acelerado das fontes renováveis intermitentes no Brasil está colocando as usinas hidrelétricas reversíveis no centro das discussões sobre o futuro do sistema elétrico brasileiro. Diversos atores convergem na avaliação de que o armazenamento hidráulico pode se tornar peça estratégica para garantir flexibilidade, potência e segurança operativa nos próximos anos.
Ao mesmo tempo, o setor reconhece que o país ainda enfrenta entraves regulatórios, ambientais e econômicos para viabilizar os projetos. O debate ganha força em meio às mudanças estruturais da matriz elétrica brasileira.
A gerente de planejamento energético do ONS, Maria Aparecida Martinez, afirma que o sistema deverá enfrentar desafios crescentes de operação com a expansão das fontes solar e eólica sem aumento proporcional da capacidade hidráulica tradicional, ampliando a necessidade de recursos capazes de responder rapidamente às oscilações de geração e demanda.
“Elas [as hidrelétricas reversíveis] têm essa função de substituição de grandes blocos de geração de energia que saem do sistema, além de armazenar energia em momentos em que o custo está mais baixo para uso desta grande bateria natural em momentos de demanda maior”, afirmou Martinez em evento da Copel promovido pela Megawhat, em Brasília,
A preocupação do ONS está diretamente relacionada ao aumento dos episódios de cortes de geração renovável (o chamado “curtailment”, no jargão do setor) e aos desafios operacionais criados pela forte expansão da geração solar. No fim da tarde, por exemplo, a produção fotovoltaica cai rapidamente enquanto o consumo aumenta, exigindo resposta rápida de outras fontes para manter o equilíbrio do sistema.
Nesse contexto, o secretário-executivo do MME (Ministério de Minas e Energia), Gustavo Ataide, avalia que sistemas de armazenamento hidráulico podem ajudar o país a enfrentar a chamada “rampa de saída do sol”. Segundo ele, o Brasil possui vantagens naturais para desenvolver a tecnologia, incluindo topografia favorável e possibilidade de integração com reservatórios já existentes. A expectativa do governo é que as usinas reversíveis passem a aparecer de forma mais estruturada nos próximos planejamentos oficiais da expansão elétrica.
Falta de regras trava projetos
Empresas como Copel, Emae e Áxia, por exemplo, já estudam a viabilidade destes projetos, mas tirá-los do papel exige um arcabouço legal que dê condições para avançar nesta ideia. O vice-presidente de estratégia, novos negócios e transformação digital da Copel, Diogo Mac Cord, diz que o Brasil precisa ainda resolver um problema básico antes de avançar em qualquer tecnologia de armazenamento: a regulamentação.
“Mesmo se a gente quiser fazer uma usina reversível, não conseguimos, pois não existem regras”, afirmou. Isso porque além das normas do setor elétrico, projetos reversíveis dependem de definições relacionadas ao uso da água, licenciamento ambiental e articulação entre órgãos como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Ibama.
Mac Cord também defendeu que o país evite concentrar a discussão apenas em baterias químicas e passe a estruturar leilões voltados ao armazenamento de energia de forma tecnológica neutra. “Não devemos falar em leilões de baterias, mas, sim, leilões de armazenamento para avaliar as melhores tecnologias para o sistema”, disse.
Do lado da regulação, o diretor da Aneel, Gentil Nogueira, entende que as reversíveis oferecem atributos superiores para o sistema elétrico quando comparadas a outras tecnologias de armazenamento, como baterias. Segundo ele, esses empreendimentos conseguem entregar simultaneamente energia, potência, flexibilidade operativa e inércia para a rede, características consideradas essenciais para a estabilidade do sistema em uma matriz cada vez mais renovável.
“Uma usina reversível dura 100 anos. Uma bateria dura 10 anos e depois temos que comprar novamente”, afirmou.
Apesar disso, o diretor da Aneel reconhece que um dos desafios das reversíveis no Brasil está na viabilidade econômica. Os empreendimentos exigem investimentos elevados e de longo prazo em um ambiente marcado por juros altos, fator que dificulta a atratividade financeira dos projetos.
As baterias químicas, por outro lado, vêm avançando mais rapidamente no mercado global devido ao menor custo inicial de implantação e ao tempo reduzido de instalação.
Ainda é cedo para ter certeza, mas o presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, disse que o órgão avalia aproveitar cerca de 19 GW de potência de hidrelétricas que têm a concessão vencendo na próxima década para introduzir soluções de armazenamento e usinas reversíveis, mas isso vai depender de um avanço da regulação.
* O repórter viajou a convite da Copel
