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SAF abre nova fronteira para o agro brasileiro

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
SAF abre nova fronteira para o agro brasileiro

O avanço do combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF (Sustainable Aviation Fuel), pode abrir uma das maiores oportunidades para o agronegócio brasileiro nas próximas décadas.

Atualmente, a produção global de SAF ainda representa menos de 1% da demanda mundial por combustível de aviação, estimada em cerca de 380 bilhões de litros por ano. No entanto, projeções do setor indicam que esse mercado poderá demandar entre 40 bilhões e 50 bilhões de litros até 2035, impulsionado pelos mandatos internacionais de descarbonização do transporte aéreo.

Para Raphaella Gomes, especialista em soluções climáticas, nenhuma rota tecnológica isolada será capaz de atender sozinha essa demanda crescente. Por isso, o mercado deverá depender de múltiplas matérias-primas e tecnologias, incluindo óleo de soja, etanol de cana, etanol de milho, biogás e hidrogênio verde.

Nesse cenário, o Brasil desponta como um dos principais candidatos naturais a fornecedor global de SAF, graças à ampla disponibilidade de etanol de cana e à rápida expansão do etanol de milho.

Atualmente, a principal rota de produção de SAF é a HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids), baseada no uso de óleos vegetais e resíduos, como óleo de cozinha usado. “Hoje, a maior parte do SAF produzido globalmente vem dessa rota. Foram cerca de 2,5 bilhões de litros produzidos no ano passado”, afirma Raphaella.

No entanto, a limitação da oferta global dessas matérias-primas tem acelerado a busca por alternativas. Uma das principais apostas é a rota “alcohol-to-jet” (ATJ), que converte etanol em combustível de aviação por meio de processos catalíticos. Segundo a especialista, essa tecnologia ainda é considerada uma solução de médio prazo, já que demanda ganho de escala industrial e envolve custos mais elevados.

Entre as alternativas de longo prazo está também a chamada “power-to-liquid” (PtL), baseada na produção de hidrogênio renovável por eletrólise combinado ao uso de CO2 biogênico para gerar combustível sintético de aviação. “Em alguns mandatos, principalmente europeus, esse CO2 precisa necessariamente vir de fontes biogênicas”, explica. Apesar do potencial, Raphaella ressalta que essa rota ainda apresenta custos significativamente superiores aos das demais tecnologias.

O crescimento do etanol de milho reforça o protagonismo brasileiro nesse cenário. Em menos de dez anos, a produção saiu praticamente do zero para responder por cerca de um quarto do etanol produzido no país.

Além da expansão acelerada, o modelo brasileiro ganhou vantagem ambiental em relação ao etanol de milho dos Estados Unidos. Isso porque as usinas nacionais utilizam biomassa como fonte energética e operam majoritariamente no sistema de safrinha, aproveitando a mesma área agrícola já utilizada pela soja.

Esse modelo já recebeu reconhecimento internacional por apresentar baixa mudança indireta do uso da terra — fator considerado estratégico para certificações globais de combustíveis sustentáveis.

“O etanol de milho brasileiro hoje possui uma pegada de carbono competitiva e grande capacidade de expansão. Isso dá segurança de suprimento para mercados globais”, avalia a especialista.

Na avaliação de especialistas, o avanço da transição energética global não deve provocar uma disputa entre etanol, biodiesel, SAF ou biometano, mas ampliar simultaneamente a demanda por diferentes rotas renováveis.

A expectativa é que o endurecimento dos mandatos internacionais de descarbonização gere uma necessidade tão elevada de combustíveis sustentáveis que haverá espaço para múltiplos produtos e tecnologias.

“Não é uma discussão de um ou outro biocombustível. O mundo vai precisar de tudo”, resume.

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