O mercado financeiro passou a projetar, através do boletim Focus apurado pelo BC (Banco Central) a inflação brasileira acima dos 5% para este ano.
O dado representa a 11ª semana consecutiva de alta nas expectativas, consolidando um cenário de pressão sobre os preços que já era antecipado pelo mercado.
Riscos inclinados para uma inflação mais alta
Patrícia Krause, economista-chefe Latin America da Coface, avaliou que o cenário atual apresenta múltiplos fatores de risco apontando para uma inflação mais elevada.
“O mercado já esperava que fosse ultrapassar essa barreira dos 5% para esse ano, já que já vinha de 10 semanas de alta”, afirmou.
Entre os principais vetores de pressão, ela destacou o conflito no Oriente Médio, que mantém a tensão geopolítica e pode elevar os preços de commodities energéticas.
No Brasil, os preços de combustíveis ainda estão represados, sem refletir integralmente a alta observada no mercado internacional.
Outro fator de atenção apontado por Krause é a inflação de alimentos. Embora o acumulado em 12 meses ainda esteja em patamar relativamente controlado, a perspectiva de chegada do fenômeno climático El Niño no segundo semestre tende a gerar pressão sobre os preços do setor.
IPCA-15 e PIB em foco
Sobre a divulgação do IPCA-15, prévia da inflação oficial, prevista para a quarta-feira (27), Patrícia Krause estimou uma leitura mensal em torno de 0,6%, com os preços ainda amplamente pressionados.
Ela mencionou que o componente de passagens aéreas pode trazer volatilidade adicional à leitura do mês, ainda que haja uma contribuição menor do segmento de combustíveis em relação ao mês de abril. O resultado, segundo ela, deve manter a inflação acumulada em 12 meses em trajetória de alta.
Em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), a economista informou que a projeção da Coface já estava em torno de 1,9% para o ano, convergindo com as estimativas do boletim Focus, que chegaram a 1,89%.
Os dados preliminares do primeiro trimestre apontam para um desempenho robusto da economia, mas Krause projeta uma desaceleração gradual ao longo dos próximos períodos.
“Medidas que estão sendo anunciadas podem trazer algum estímulo e, com isso, levar a uma desaceleração mais lenta da economia”, ponderou.
Para o PIB do primeiro trimestre, cuja divulgação está prevista para a sexta-feira (29), a expectativa é de crescimento em torno de 1% na comparação com o último trimestre do ano anterior.
Câmbio, eleições e trajetória da Selic
Sobre o câmbio, Krause apontou que há fatores favoráveis à apreciação do real, como o enfraquecimento do dólar, os termos de troca favoráveis ao Brasil e o superávit da balança comercial.
A taxa de juros real ainda elevada também contribui para o chamado carry trade, mantendo o interesse de investidores no mercado brasileiro. A economista estimou que o câmbio deve se manter em torno de R$ 5,00.
Para o segundo semestre, Patrícia Krause reconheceu que o cenário eleitoral tende a introduzir volatilidade adicional ao câmbio, como ocorre historicamente em períodos de eleições presidenciais.
No entanto, ela avaliou que o fato de os possíveis candidatos serem nomes já conhecidos pelo mercado pode atenuar parte dessa incerteza. Quanto à Selic, a projeção do Focus aponta para 13,25%, mas Patrícia Krause alertou que, diante dos riscos inflacionários, o Banco Central pode não conseguir chegar a esse patamar.
“Se a gente não tem uma resolução do conflito, provavelmente vai reunião por reunião e podendo chegar a algo mais próximo de uns 14% do que os 13,25%”, concluiu.
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