O BC (Banco Central do Brasil) apontou deterioração dos indicadores de risco nas operações de crédito rural e agroindustrial de pessoas físicas no REF (Relatório de Estabilidade Financeira), divulgado nesta segunda-feira (25). Ao mesmo tempo, a autoridade monetária mostra avanço em instrumentos privados de financiamento do agronegócio que seguem crescendo em ritmo acelerado no país.
O documento aponta aumento da percepção de risco nas modalidades de crédito às famílias e destaca piora justamente nas operações rural e agroindustrial para pessoas físicas, cujos indicadores avançaram ao longo de 2024 e 2025. O relatório também indica que a trajetória de alta da probabilidade de inadimplência (default) nessas carteiras deve permanecer nos próximos períodos.
“As citações mencionando riscos de inadimplência e atividade aumentaram em um ambiente de elevado grau de alavancagem das famílias e empresas. Destaca-se a preocupação com o aumento do comprometimento de renda com pagamento de dívidas das PFs e da inadimplência no agronegócio, o que pode pressionar a oferta de crédito e contribuir para maior desaceleração do crescimento econômico”, diz o relatório.
Na parte voltada às empresas, o BC reconhece que a capacidade de pagamento segue pressionada em meio ao ambiente de juros elevados. Segundo o relatório, “a cautela identificada na PTC (Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito) permanece coerente com a desafiadora capacidade de pagamento de empresas e famílias”.
O documento também aponta pressão sobre a rentabilidade das instituições financeiras públicas, “sobretudo em função dos impactos da materialização de risco, em especial na carteira de crédito rural”, indicando que a deterioração no agro já afeta operações ligadas ao segmento empresarial.
Além disso, o BC afirma que “ainda há sinais de propensão ao risco, mas as IFs continuaram reduzindo o apetite”, em um cenário de maior cautela das instituições financeiras na concessão de crédito.
“A capacidade de pagamento das empresas segue desafiadora, sob a influência do aperto das condições financeiras. A despeito de uma política monetária ainda contracionista, a atividade econômica tem mostrado resiliência, o que influenciou positivamente no aumento das receitas e do Ebitda das empresas de maior porte”, diz o BC.
Mercado de capitais em alta
Ao mesmo tempo, o mercado de capitais ligado ao agronegócio segue avançando. O CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) cresceu 16,5% em 12 meses até dezembro de 2025, enquanto a CPR (Cédula de Produto Rural) avançou 18,3% no período. Outros instrumentos também registraram expansão, como os FIDC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), com alta de 22,9%, e as debêntures, que cresceram 18,4%.
O movimento reforça uma tendência destacada pelo próprio BC: “embora em desaceleração, o mercado de capitais segue crescendo em ritmo bastante superior ao crédito bancário”. Segundo o relatório, esse mercado vem absorvendo “parte da demanda de crédito de grandes empresas pela emissão de debêntures e notas comerciais, e parte do crédito rural com as emissões de CPR”.
Na parte de funding, o BC registra queda semestral de 2% no estoque de LCA (Letras de Crédito do Agronegócio), movimento que atribui ao “cenário de menor apetite dos emissores em função da crise no crédito rural que se instalou em 2025”.
Cenário internacional preocupa
O cenário externo também aparece como fator adicional de preocupação. O BC afirma que “a eclosão do conflito entre EUA, Israel e Irã elevou consideravelmente a incerteza sobre o cenário global”, afetando “o fluxo de commodities pelo Estreito de Ormuz”.
Segundo o relatório, o conflito provocou “encarecimento dos preços de energia” e “reavaliação, pelos mercados, das perspectivas para a inflação”. O BC avalia ainda que “o prolongamento do conflito no Oriente Médio eleva a incerteza geopolítica e pode afetar fluxos globais de comércio e de commodities, com repercussões macrofinanceiras”.

