Estados Unidos e Irã seguem tentando superar divergências na redação de um documento que poderia encerrar o conflito entre os dois países. Apesar de avanços nas negociações nesta segunda-feira (25), o programa nuclear iraniano e as sanções americanas permanecem como pontos de impasse significativos.
Durante participação no CNN 360°, a analista de Internacional Fernanda Magnotta disse que qualquer acordo firmado nesse momento deve ser frágil.
Na avaliação da analista, o eventual acordo reflete o fato de que nenhum dos lados acredita que uma guerra prolongada seja sustentável. “A sensação que eu tenho é que qualquer acordo que seja firmado nesse momento será frágil porque ele não endereça os pontos mais profundos, que de fato são difíceis de acomodar”, afirmou.
Ela acrescentou que o acordo muito provavelmente será pior do que versões anteriores já possíveis no passado, e que a questão central não é apenas militar, mas também geoeconômica — envolvendo a circulação de petróleo no Estreito de Ormuz e seus impactos na cadeia de energia global, na inflação e na estabilidade dos mercados.
Os dois lados
De acordo com Kevin Liptak, repórter da CNN na Casa Branca, as negociações continuam travadas em questões de redação do acordo final. A presença de uma delegação iraniana no Catar gerou esperanças de que mediadores qatarianos pudessem destravar o processo, mas a expectativa, ao menos do lado americano, é de que as negociações se estendam por mais alguns dias.
Liptak destacou ainda a dificuldade de obter a aprovação do líder supremo iraniano para alterações no texto, em parte porque ele permanece em local desconhecido.
Os dois lados apresentam versões contraditórias sobre o que já foi acordado. Os americanos afirmam que o Irã concordou, em princípio, em abrir mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido.
Os iranianos, por sua vez, negam que o programa nuclear tenha sido discutido em detalhes. Ao mesmo tempo, o Irã exige mais especificidades sobre quais sanções os EUA estão dispostos a levantar e quais ativos seriam descongelados. A resposta americana é que qualquer alívio financeiro só virá após progressos concretos — a frase que se repete do lado americano é “no dust, no dollars”, em referência ao estoque de urânio enriquecido.
Lado positivo nas negociações
“O lado positivo dessa conversa é que ainda há diálogo e que, se há diálogo, há alguma esperança de articulação no campo técnico e da diplomacia”, afirmou Magnotta. No entanto, ela avalia que as partes ainda estão longe de pacificar os termos do acordo.
Magnotta destacou que os ritmos de negociação são distintos entre os dois lados. “Os americanos têm pressa de acabar com o conflito e, portanto, têm pressa de encontrar os termos razoáveis para declarar algum tipo de vitória, enquanto os iranianos não têm pressa”, explicou.
Segundo ela, o Irã se beneficiou dos gargalos revelados no Estreito de Ormuz e, com isso, ganhou poder de barganha que antes não possuía.
A analista ressaltou que os pontos de maior sensibilidade entre os dois países não se alteraram estruturalmente ao longo de 15 ou 20 anos. Os americanos querem conter o enriquecimento de urânio iraniano, enquanto o Irã insiste no direito de desenvolver essa tecnologia e se recusa a enviar suas reservas de urânio para fora do país sem a retirada das sanções.
“É um entreveiro que já perdura algumas gestões dos dois lados e que não me parece que está sendo devidamente direcionado nesse momento”, disse Magnotta.

